Da série “livros pra fugir de casa”: Geração Beat

Se você curte a geração beat, ou tem um mínimo interesse pela turba de poetas e escritores viajantes e marginais, deve ter percebido que faltava um livro no mercado que sistematizasse a jogada toda, contextualizando e indicando outras leituras. Faltava. Agora, felizmente é fácil encontrar nas livrarias o título Geração Beat, de Claudio Willer, pequena pedrada-pocket da coleção encyclopaedia da editora L&PM.

Willer é um grande estudioso do assunto, e já verteu para o português vários  poemas de Allen Ginsberg, sempre com riqueza de notas explicativas e textos adicionais. Em “Geração Beat”, ele revela um texto impecavelmente conciso e organizado, e muito agradável de ler – as linhas simplesmente se desmancham frente aos nossos olhos e lá estamos nós ao lado de Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs.

Longe de ser um tratado sobre o assunto, este é um livro introdutório para quem começa  a se aventurar nesta imensa praia de girassóis, assim como presta uma louvável função de discutir e organizar um pouco dessa  loucura toda para aqueles que já a apreciam. Mais dois outros méritos do título são: a preocupação de Willer em trazer nomes que se ligam de alguma forma ao movimento aqui no Brasil e na América Latina – há inclusive um capítulo que trata apenas de como se difundiu a beat no Brasil, e a discussão de como estes tortos caminhos percorridos por esta geração iriam desmbocar na contracultura.

Texto: Alexandre Lucchese

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Por que o Ginsberg meditava

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Por que eu medito

Sento porque os Dadaístas gritaram na Rua do Espelho
Sento porque os Surrealistas comeram travesseiros raivosos
Sento porque os Imagistas respiraram calmamente em Rutherford e Manhattan
Sento porque 2400 anos
Sento na América porque Buda viu um cadáver em Lumbini
Sento porque os Yippies uma vez celebraram o céu de gás lacrimogêneo de Chicago
Sento porque Não porquê
Sento porque sou incapaz de conduzir o Não-nascido de volta ao útero
Sento porque é fácil
Sento porque fico com raiva se não sento
Sento porque me disseram para sentar
Sento porque li sobre isso nos quadrinhos do jornal
Sento porque tive uma visão além de ter tomado LSD
Sento porque não sei fazer outra coisa como Peter Orlovsky
Sento porque depois de Lunacharsky ter pegado fogo & Stalin ter dado uma quadra de tênis especial para Zhdanov eu me tornei um cosmopolitano sem raízes
Sento dentro da concha do velho Eu
Sento pela revolução mundial

……………………………………….18 de julho de 1981

Tradução de Ale Lucchese do poema Why I meditate, de Allen Ginsberg, publicado no livro White Shroud poems. Leia o original aqui. Imagem roubada de http://www.allenginsberg.org/.

Em busca do barato perfeito

532408Um jovem senhor de 39 anos sai dos Estados Unidos, se embrenha pela Colômbia,  Equador e Chile, é roubado, enganado pelos nativos, preso, pega malária no meio da selva , e convive com espasmos constantes decorrentes da fissura do seu vício em heroína – droga que parece não ter acesso na América do Sul. Mas em nenhum momento ele pensa em desistir.  Motivado por o quê?

A resposta é pelo yage, mais conhecido como ahayuasca aqui entre nós. Sim, a planta que faz a infusão bebida em cerimoniais do Santo Daime. William Burroughs banca essa viagem em busca do barato definitivo, se estrepa muito pelo caminho, mas acaba conseguindo o que quer.

A busca pela droga perfeita foi o que fez Burroughs, e mais tarde seu amigo e poeta Allen Ginsberg, cair fora do “progresso” material do pós-guerra norte-americano com o ímpeto, força de vontade e obstinação de um guerrilheiro. Talvez Burroughs e toda sua patota beat sejam mesmo guerrilheiros, abrindo o peito em direção a outras formas de apreensão e compreensão da realidade que fossem além do esquematismo tecnocrata. E neste momento e movimento a chapação era um dos únicos portos seguros contra o violento absolutismo da razão.

As cartas que Burroughs escreve para Ginsberg em 1953, e que Ginsberg escreve para Burroughs em 1960, ambos em meio a busca pela ayahuasca na América Latina, viraram o livro Cartas do Yage. Encontrei há poucos dias uma edição de bolso da L&PM, comprei e devorei rapidamente de ontem pra hoje a aventura toda. Custa oito pilas. É um bálsamo para todos que gostam de viagens – em todos os sentidos que essa palavra pode ter.

Texto: Ale Lucchese