Na trilha certa

careta

Hoje acordei numa ressaca maldosa. Não bebia há eras e ontem quase entrei para dentro do copo num boteco ali em cima dos autos da Borges. Não sabia se tomava café, se levantava, se tomava banho, se continuava deitado… Bom, acho que não preciso explicar pra você, nobre leitor, como é esse negócio de ressaca. O fato é que mesmo nesse estado de ânimo não consegui segurar a curiosidade e fui ligar o pecê para descorir que não tinha ganhado nada no tal concurso de Poesia ao Vídeo da Fliporto, onde concorria numa parceira feita com a Dani Sibonis (assista aqui) .

Sim, a relação dos vencedores saiu hoje de manhã. Mas tudo bem, é a vida. E bem na real, devo confessar que é mentira essa história de que não ganhei nada. Esse processo todo foi muito rico em vários sentidos, e a primeira coisa que ganhei foi a alegria de ver o apoio dos amigos e leitores que frequentam essa página. Foram em torno de noventa pessoas que se deram ao trabalho de entrar na parada, preencher nome e email e votar. Só me resta agradecer e prometer nunca fazer feio pra vocês, caríssimos!

Alem disso, expor o trabalho é a única forma de receber crítica – sejam positivas ou negativas. E outro  grande presente aconteceu nesse sentido, quando alguém, tentando me malhar difiniu-me como um “tipo simplista e objetivista”. Foi nesse momento que tive certeza de estar trilhando o caminho certo.

E não há nada de revanchismo ou ironia nisso que estou afirmando. Falo francamente e de coração aberto. Assim como Walt Whitman, creio que o poema deve ser simples como um copo d’água, como uma coçada no cabelo, como uma careta em frente ao espelho, como encher os pulmões de ar e depois soltar e depois voltar a encher e assim sucessivamente. O poeta não escreve, apenas entrega o poema ao leitor, com o mínimo de intervenção.

Mais uma vez obrigado a todos! E sigamos em frente.

*Sexta-feira irei para um curso de Habilidades de Comunicação e Resolução de Conflitos, no Instituto Arca Verde. Serão três dias em uma comunidade eco-sustentável em São Francisco de Paula. Ficarei acampado, mas também há dormitórios. Não dá pra perder, vamos nessa! Se quiserem mais informações, escrevam que repasso o material de divulgação.

Texto e foto: Ale Lucchese

Eleja um estrangeiro

Companheiros de estrada,

depois do primeira fase nebulosa da votação do concurso de Poesia ao Vídeo da Fliporto, o sistema foi zerado e a votação recomeçou. Por isso lhes peço: se curtiram o trabalho deste que vos fala, vai lá e vota. Se ainda não viu, dá pra conferir na própria página de votação. Entra lá: é só clicar aí embaixo:

Clique aqui e vote

.

.

.

Gracias de todo,

Alexandre Lucchese

Helena

.
Abraço teu tronco com minhas pernas
e teu pescoço tranforma em colar meus braços
Sinto o mundo me levantar
na alavanca dos teus joelhos
Todo meu corpo suspenso
Tua carne
meu único eixo

Poema de Helena

Na semana passada, Wladymir Ungaretti passou a publicar textos esparsos da autora dos versos acima, encontrados em um lote de livros adquirido num grande sebo da capital.  Atraído por alguns títulos anarquistas que ainda não possuía em sua biblioteca, bem como por uma edição limitada do Catatau autografada pelo próprio Leminski, Ungaretti percebeu que aquelas duas caixas que o sebo acabara de receber em sua presença poderiam guardar ainda maiores preciosidades. Naquela manhã teve que voltar de táxi para casa – e ainda deu uma gorjeta ao motorista para descarregar as caixas bem no meio da sua sala de estar.

Aos poucos, Ungaretti começou a selecionar o que havia de melhor em sua aquisição. Havia uma baboseira infinita de poetas românticos reeditados; mas, entre um Álvares de Azevedo e outro, retirava mais um livro do Leminski, uma edição francesa de A Desobediência Civil, antigas traduções portuguesas de Walt Whitman… Já sentia que havia feito um bom negócio.

Mas foi só quando abriu a segunda caixa de livros que o colecionador se deu conta de que tinha em mãos algo verdadeiramente único. Havia algumas folhas mimeografadas, meio borradas pelo tempo e pela umidade, mas não havia como duvidar de que eram aquilo mesmo: poemas eróticos. A partir daí, Ungaretti voltou a revisar todos os livros que tinha visto anteriormente, e encontrou folhas de caderno esparsas entre os tomos. Algumas eram cartas, outras rascunhos, ou ainda trechos de poemas e traduções. Tudo bastante informal e desorganizado, geralmente assinado com “Helena” ou simples e sensualmente grafado com um  “H”.

O próprio Ungaretti lembrou da militante anarquista que distribuia textos eróticos na saída de colégios e de igrejas do centro de Porto Alegre, nos anos 1970. Os papéis encontrados parecem coincidir com esta personagem, mas encontrá-la ou ainda traçar um perfil desta – mesmo que mínimo – tem se revelado uma tarefa das mais árduas e pateticamente irritantes. As informações são confusas e muitas vezes contraditórias, cada vez que descobrimos algo novo, parece que afundamos ainda mais no mesmo lugar. Nossa pesquisa continuará, mas por enquanto Helena tem sido um enigma inquietante e, devo admitir, muito bom de conviver.

Texto: Ale Lucchese

A travessia iluminada de Gary Snyder

Acontece que talvez nenhum de nós conhecesse Gary Snyder se ele não escrevesse versos e fosse um dos grãos de pólen dando cotoveladas até desabrochar o grande girassol que se tornou a cena cultural de São Francisco nos anos 1950. Na verdade, apenas um ano bastou para tornar Snyder um dos vagabundos mais conhecidos do planeta. Foi em 1955 que ele conheceu Jack Kerouac – a entidade que escreveu On the road – e foi até 1956, que eles viveram todas as iluminações que Kerouac publicou em The Dharma bums – algo como “Os vagabundos do Dharma”, mas que saiu no Brasil como “Os vagabundos iluminados”.

Morro da Polícia_Av. Salvador França_2

Nas páginas de Kerouac, Snyder ganha o nome de Japhy Ryder. Snyder/Ryder é um jovem estudante de chinês clássico na Universidade de Berkeley, e que também escreve versos e estuda literatura inglesa. O rapaz tem 25 anos, uma bagagem enorme de leituras, conhece grande parte dos Estados Unidos viajando de carona, já foi lenhador e guarda florestal. Além disso, é filho de anarco-sindicalistas, sabe tocar um hinário anarquista no violão, e apóia qualquer manifestação política de esquerda, apesar de não acreditar em nenhuma delas: quer mesmo é fazer balançar até cair o way of life que vem se estabelecendo no pós-guerra.

Todas essas facetas já comporiam um grande personagem, mas guardo aqui nesse parágrafo o componente mais incendiário: Snyder é um zen-budista. Quando Kerouac nos faz sentar com Japhy Ryder para tomar um vinho barato e ler as traduções que está fazendo do poeta Han Shan, é perceptível que Ryder/Snyder não está traduzindo apenas versos, mas um modo de vida inteiro diverso do tecnicismo que o pós-guerra acelerava. Snyder dinamitava qualquer engrenagem técnica que estava estruturada ou se estruturando na cabeça de quem aceitasse sentar com ele no chão para tomar uma xícara de chá.

Morro da Polícia_7

Ryder/Snyder ia em busca de si mesmo escalando montanhas, vivendo de maneira harmonizada com o meio em seus exílios pela natureza selvagem. Tal como Han Shan escrevia seus versos em pedras e cavernas no século IX, o vagabundo iluminado fazia enormes mandalas de neve ou de arbustos, invocava mantras e praticava meditação zen entre um dia e outro de caminhada pré-organizada. Organização é tudo quando se está sozinho, dependendo apenas das próprias pernas e com pouca comida em um ambiente selvagem: um cálculo errado pode significar a morte. O auto-conhecimento de Snyder quanto às suas necessidades e o respeito pelo espaço em que se encontra fazem qualquer papo sobre “sustentabilidade” parecer balela. As jornadas do poeta nos ensinam a amar e fazer parte do mundo, e não a gestar seus recursos de maneira que a exploração possa continuar por mais tempo.

Canto para sonhar

“Os vagabundos iluminados” acompanha Snyder até sua partida em um navio para seus oito anos de treino formal zen no Japão, em 1956. O poeta retorna no fim dos anos 1960, com esposa e filho, estabelecendo-se em uma fazenda ao pé das montanhas no norte da Califórnia.

Morro da Polícia_Av. João Pessoa_2

Tão artesanal quanto sua morada, a poesia de Snyder toca fundo alguma coisa que ainda pulsa em nós de espontâneo e primitivo. Seus temas vão desde um simples banho no filho a uma possível harmonização da cultura dos índios americanos com a invasão européia. Também escreve ensaios sobre etnopoesia, zen-budismo, meio ambiente, e tantas outras coisas. Seu livro Turtle Island, de 1974, foi premiado com o Pulitzer de poesia.

Apesar de ter mais de duas dezenas de títulos lançados, são escassos seus materiais com tradução em português. A maioria deles leva mais em conta o lado ensaísta de Snyder, em detrimento do poeta. Recentemente a Azougue Editorial lançou uma coletânea com seus poemas e ensaios, intitulada “Re-habitar”, mas nada de livros completos por essas bandas.

Outras travessias

“Os vagabundo iluminados” foi lançado em 1958, e contribuiu para que o poeta fosse elencado até hoje na lista dos expoentes da geração beat. Snyder não acha isso ruim, mas esclarece que teve pouca participação nas loucuradas libertárias daqueles anos em São Franciso, e que só manteve maior contato com Allen Ginsberg depois dos anos 1950, na medida em que crescia o interesse de Ginsberg pelo zen.

Ginsberg foi quem escreveu Uivo, o poema, digamos, “de estréia” da geração beat. Uivo se configurou como uma espécie de manifesto de alguns iluminados de uma geração que queria qualquer coisa, menos uma família americana, uma casa com calefação e um forno elétrico. Queriam uma vida que pulsasse, e não a acomodação do “pesadelo com ar-condicionado”, como Henry Miller iria definir com precisão em outro momento.

Morro do Osso_1

Em Back on the fire, lançado em 2007, um Gary Snyder com 77 anos conta como recebeu, a notícia de que Ginsberg estava falecendo em um hospital, vítima de câncer no fígado, em 1997. Ele conta com a simplicidade que só cabe aos poetas como Ginsberg “atravessou” a vida do coma para a morte, do mesmo modo que “o dia anterior a ontem atravessou as montanhas lá longe – no cheio florescer das cerejeiras”. É desse modo que Snyder atravessa a vida.

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão