Desmistificando a leitura (ou por que eu prefiro me chapar ao invés de ler)

Esse papo da Câmera do Livro de que ler-é-uma-maravilha-e-sei-lá-mais-o-quê não serve pra nada, a não ser para agradar livreiros e editoras. E também para criar uma ilusão de que possuir livros faz com que os doutores sejam diferentes da gentalha a sua volta. Doce ilusão: ler não tem nada demais. E descobri ontem que o Galeano concorda comigo:

Ensina-se a competir, não a dividir: no mundo que se descreve e se postula, as pessoas pertencem aos automóveis e a cultura é consumida como uma droga, mas não é criada. Esta é também uma cultura, uma cultura da resignação, que gera necessidades artificiais para ocultar as reais. Ninguém poderia, creio eu, negar a amplidão de sua influência. Cabe perguntar, em todo caso: tem culpa os meios que a transmitem? O televisor é ruim e os livros, bons? De quem é a culpa do crime: da faca? Não abundam os livros que nos ensinam a desprezar-nos e aceitar a história, em vez de fazê-la?

Excerto de “Dez erros ou mentiras frequentes sobre literatura e cultura na América Latina”, do livro “A descoberta da América (que ainda não houve)”, de Eduardo Galeano.

Para não se perder por aí

Nunca levei muita fé nesse lance de guias de viagem. Achava que era preciso sair por aí e descobrir as coisas por si mesmo. Ainda acho isso, mas fui obrigada a mudar de opinião em relação aos guias quando, depois de alguma insistência do Ale, adquirimos o “Guia Criativo para Viajante Independente na América do Sul”.

Por uma bagatela de R$ 60 temos agora em nossas mãos um belo conjunto de dicas sobre os mais diversos assuntos de 12 países da América do Sul (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela), e o que é melhor, em português.

As informações foram organizadas por país, onde há dados sobre a geografia, economia, história, clima, entrada (avião, carro, ônibus, etc), fuso horário, eletricidade (se é 110V ou 220V), câmbio, segurança (quais cuidados importante devem ser tomados), locomoção, alimentação, entretenimento, entre outros assuntos. Após, há dicas sobre as principais cidades com mapa, lista de hostels, albergues e hotéis, quais são as atrações, etc.  Uma desvantagem: suas quase 700 páginas pesam cerca de 500g, o que já faz uma diferença na mochila ao final de um cansativo dia.

Há outros guias por aí como, por exemplo, o famoso Lonely Planet. Dei uma folheada e me pareceu ser bastante completo apesar de ser em inglês o que pode ser um empecilho para algumas pessoas.

Mas acho que a sacada aqui é folhear e escolher o que melhor se encaixa nas tuas expectativas e necessidades, sempre com uma certeza: numa viagem, informações sempre vêm pro bem porque nos impedem de entrar em furadas ou deixar de ir a lugares imperdíveis que só quem é nativo ou conhece bem o lugar sabe.

Texto: Thais Brandão

Da série “livros pra fugir de casa”: Geração Beat

Se você curte a geração beat, ou tem um mínimo interesse pela turba de poetas e escritores viajantes e marginais, deve ter percebido que faltava um livro no mercado que sistematizasse a jogada toda, contextualizando e indicando outras leituras. Faltava. Agora, felizmente é fácil encontrar nas livrarias o título Geração Beat, de Claudio Willer, pequena pedrada-pocket da coleção encyclopaedia da editora L&PM.

Willer é um grande estudioso do assunto, e já verteu para o português vários  poemas de Allen Ginsberg, sempre com riqueza de notas explicativas e textos adicionais. Em “Geração Beat”, ele revela um texto impecavelmente conciso e organizado, e muito agradável de ler – as linhas simplesmente se desmancham frente aos nossos olhos e lá estamos nós ao lado de Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs.

Longe de ser um tratado sobre o assunto, este é um livro introdutório para quem começa  a se aventurar nesta imensa praia de girassóis, assim como presta uma louvável função de discutir e organizar um pouco dessa  loucura toda para aqueles que já a apreciam. Mais dois outros méritos do título são: a preocupação de Willer em trazer nomes que se ligam de alguma forma ao movimento aqui no Brasil e na América Latina – há inclusive um capítulo que trata apenas de como se difundiu a beat no Brasil, e a discussão de como estes tortos caminhos percorridos por esta geração iriam desmbocar na contracultura.

Texto: Alexandre Lucchese

Äsne Seierstad: jornalismo aprendido na estrada

asne

– É preferível ensinar jornalismo para alguém que sabe falar russo do que ensinar russo para um jornalista.

102 dias em bagdaFoi o que disse o editor do jornal no qual Äsne Seierstad estava há pouco trabalhando. Com 24 anos, a norueguesa licenciada em russo e história da filosofia na Universidade de Oslo,  que fala inglês, alemão, espanhol, francês, russo e servo-croata (Ui), foi parar na Chechênia (região no sudoeste da Rússia que luta pela sua independência), em plena guerra como correspondente internacional.

Após lançar “De costas para o mundo: retratos da Sérvia”, Asne, ganhou  notoriedade ao, em 2001, quando, após a queda do talibã, viver 3 meses com uma família afegã,  experiência essa que rendeu “O Livreiro de Cabul”, livro de enorme sucesso mundial. Em 2003, lança “101 dias em Bagdá” sobre a cobertura da guerra do Iraque. E, finalmente, para retratar os horrrores que viu na Chechênia, ao retornar em 2006, publica o livro “Crianças de Grozni”.  Suas coberturas de guerra lhe renderam, além de livros e reportagens, alguns dos mais importantes prêmios de jornalismo do mundo

Os livros são muito bons. Äsne faz a gente se sentir dentro do quarto do hotel que está para ser bombardeado em Bagdá, o peso que é para uma mulher usar um colete à prova de balas ou dormir em um rélis tapetinho  sobre concreto a semanas a fio. Ela sempre entrevista muitas pessoas, mostra o lado humano dos conflitos, que por trás de toda loucura há histórias reais, sofrimento, esperança. Gente que podia ser nosso vizinho, tio….

# Esse post é também um protesto contra a aprovação, nesta quarta-feira (11/11), da emenda à Constituição (PEC) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara que torna obrigatório curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Os Estrangeiros acham que é possível, sim, fazer bom jornalismo sem diploma.

Texto: Thais Brandão

A Bíblia na moda

Dentre as coisas do mercado literário que tem despertado minha veia consumista estão dois títulos que remetem ao Antigo Testamento: a graphic novel de Robert Crumb que reconstrói o Gênesis, e o Caim de José Saramago. E essa semana ainda comecei a ler Teoria da Viagem, de Michel Onfray, que começa – adivinhem! – no Velho Testamento, evocando o mito de Caim para trabalhar o arquétipo do viajante.

Devo confessar que me dá uma certa esperança na vida – provavelmente ingênua, eu sei – ao ver um texto que reconstrói e aglutina milênios de mitos e sabedoria humana sendo encarados neste momento com olhar literário. A Bíblia não só nos compilou, como também nos inventou – e por isso talvez seja um texto relevante demais para ser usado apenas como material publicitário de igrejas. Vos convido a ler, interpretar, nos reconhecer, nos orgulhar, nos envergonhar. Pregar? Sim, pregar também, por que não? Mas ler antes de pregar.

Nesse sentido, o livro de Crumb talvez seja o mais interessante, pois simplesmente nos estrega o texto tal como ele é, ao mesmo tempo que nos livra das amarras imaginativas em relação ao “sagrado”, dando um empurranzinho para a imaginação leitora através dos desenhos. Já o clima de acerto de contas com Deus, que vem implícito nas resenhas sobre Saramago, é bem condizente com sua personalidade ranzinza, mas o velho não é tão totalitário quanto tentam vender – ou pelo menos sua literatura não é. Enfim, vale a pena conferir, até porque Saramago nunca é uma leitura ruim. Quanto ao Onfray, certamente Teoria da Viagem terá mais espaço aqui neste blog: é um livro generoso e intenso.

Pois é, pra quem se interessa pelo assunto, o negócio é procurar também um exemplar de Esaú e Jacó, onde o Machado de Assis trata do mito de Caim e Abel. Ah, sim, e tem os próprios Antigo e Novo Testamentos para ler – e vamos combinar que esses dois são livros bem fáceis de achar…

Texto: Ale Lucchese

Rio Grande do Sul Adentro

Juntar três amigos, cinco cavalos, dois cuscos e se atirar pelo Rio Grande do Sul para fazer 600 quilômetros em 13 dias de cavalgada tem tudo para ser uma grande aventura. E foi. Imagine o sufoco que deve ter sido para três rapazes-de-vinte-e-poucos-anos já acostumado com a rotina de Santa Maria sair pela grota gaúcha sem saber direito como arranjar comida, tendo que mendigar pouso, cuidar dos cavalos e descobrir rotas e caminhos possíveis de seguir com os animais pelos descampados.

É para reconstruir e fixar a memória dessa ensandecida  jornada que nasceu o livro Terra Adentro, obra dos guapos Tau Golin, Pedro Luiz Osório e Sérgio Metz. A viagem rendeu uma longa matéria assinada pelos três no Caderno de Sábado do Correio do Povo, ainda em 1980, ano que realizaram a empreitada. Esta matéria está na íntegra no livro, junto com outros causos da viagem.

Constituído de muitos fragmentos, há alguns trechos da obra mais brilhantes que outros. Mas vale a pena atravessar os trechos áridos: a prosa alcança uma beleza tão delicada em alguns momentos que conseguimos sacar que algum encanto abençoou a rota desses cavalheiros.

O trio se define como três “práticos da política” que queriam conhecer e vivenciar a cultura da terra que lhes deu a vida. E por isso toparam esse desafio, deixando o conforto familiar para queimar assim seus dias de férias e suas economias. Só por essa inusitada e perspicaz coragem, esse livro já deveria ser lido. Não é todo dia que alguém sai de casa para descobrir o Rio Grande do Sul.

Texto: Ale Lucchese

Contornando as Américas

Não queria ser mais um dos tantos que vive adiando um sonho.

Tenho plena consciência de que estamos de passagem nesta vida.

O tempo é crucial.

A decisão de abandonar uma vida tradicional e cômoda cabia a mim mesmo.

Era hora de escutar minha alma.

Mais do que isso, era hora de partir.

Marcelo Ramos de Oliveira

 

lg_contornandoTaí um livro que deve ser lido por quem pretende viajar ou simplesmente curte esse lance de viagem. O ano era 1998 e Marcelo era um cara que estava numa situação em que muitas pessoas costumam ficar e se acomodar: encontrava-se entediado e pouco satisfeito com a vida que vinha levando. Mesmo trabalhando numa grande empresa, na sua área de formação e com um bom salário não se sentia feliz. Resolveu mudar. Quebrou a cabeça pensando e sacou que sua felicidade estava esperando-o nas estradas. Pesquisou, planejou, calculou, buscou patrocínio para ficar nove meses rodando a América em uma caminhote, indo pela costa oeste até o Alaska e voltando pela leste, percorrendo 77.000km num total de 29 países.

O livro nada mais é do que um relato dessa aventura, onde Marcelo conta tudo, desde o início da idéia até o dia em que retornou da expedição: o que foi preciso para delinear a projeto e conseguir patrocinadores que bancassem (quase) tudo, como foi,  muitas vezes, a dura rotina de um viajante que não tinha muita grana e que precisava prestar contas e divulgar o projeto, os desgastantes procedimentos de entrada nas fronteiras, as pessoas que encontrou e deixou pelo caminho e por aí vai. É uma leitura que vale a pena porque dá uma boa idéia do que pode se encontrar nesta louca América, as coisas boas e ruins. No fim fica a certeza que a liberdade só pode ser conquistada com algo que poucos verdadeiramente dispõe: coragem. E Marcelo teve.

O livro foi lançado em 2000. Consegui comprar o meu no Estante Virtual. Sei que é possível encontrar outros exemplares lá.

Texto: Thais Brandão