Fotógrafos-que-nos-fazem-viajar: Otto Stupakoff

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A verdade é que demorou para Otto Stupakoff aparecer aqui n’Os Estrangeiros. Talvez, se não fosse Stupakoff, este blog nem existiria. Foi ao ler na casa de um amigo o texto de abertura de um livro do fotógrafo editado pela Cosac Naify, que percebi o quanto eu era bunda-mole – não que eu seja muito menos agora – e que enorme mundo existe aí para ser desbravado.

E foi com esse livro, dois ou três dias depois, que presenteei Thais pelas festas de fim de ano. E, logo após a leitura em voz alta de suas primeiras páginas, estávamos irremediavelmente contaminados pelo desafio de pegar a estrada e descobrir a terra – ainda que não tivéssemos percebido isso naquele momento.

Stupakoff é bastante conhecido por seu trabalho relacionado à moda. E também por ter fotografado muitas celebridades. Dizia o fotógrafo que sabia lidar com gente difícil, por isso lembravam dele quando alguém precisava retratar alguma estrela. Mas Otto também era cascudo em longas jornadas morando com esquimós, viu a aurora borealis, foi preso no Camboja, foi casado com uma miss universo que faleceu tragicamente… Otto viveu intensamente.

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Mesmo sua morte discreta, solitário em um flat em São Paulo, em abril deste ano, causou muito barulho. Além de sites e publicações sobre fotografia pagarem longos tributos, aconteceram diversas exposições aqui no Brasil e ao redor do mundo, e mais um livro permeado de seus cliques ganhou as livrarias: “Seqüencias”, editado pelo Instituto Moreira Salles. Pois que continue assim viva essa alma, fazendo o que sabia fazer melhor: despertar outras almas.

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Texto: Alexandre Lucchese

Fotógrafos-que-nos-fazem-viajar: Martin Parr

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Só há um jeito de começar um post sobre Marin Parr n’Os Estrangeiros: citando uma frase dita pelo figura a um jornalista que questionou o estranhamento gerado por sua entrada como membro da agência Magnum. Pois vai lá: “os fotógrafos da Magnum eram criados para sair como um guerreiro das Cruzadas… para lugares carentes, em guerra… e eu saí e fiquei em volta do quarteirão porque, para mim, esta é a linha de frente.”

E é isso que os olhos de Parr conseguem captar, e é isso que nos deixa de quatro em frente ao seu trabalho, com todos os sentidos confusos. Alegria? Vergonha? Fome? Nojo? Alívio? Dor? Um fotógrafo crítico, em uma tentativa de desmerecer o trabalho de Parr, uma vez afirmou que suas fotos “não faziam sentido”. Ora, essa é exatamente o maior elogio que um artista de verdade pode receber. Olé!

Mas é isso, as fotos sempre falam por si. E com Martin Parr não é diferente. Não se deixe levar pelo cinismo aparente ou pelo riso, são apenas duas das muitas faces de cada imagem de Parr. Por trás dos flashes estouradaços, das cores saturadas e da fidelidade ao filme analógico, está o gênio criticado por ser um fotógrafo-de-uma-pauta-só: o homem que clica a vida bovina da sociedade ocidental. Precisa mais do que isso?

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Fotos: Martin Parr
Texto: Ale Lucchese

Fotógrafos-que-nos-fazem-viajar: Loretta Lux

Vou ser sincero com vocês: não venho acompanhando como gostaria o mundo fotográfico. E foi pensando nisso que minha sempre atenciosa companheira Thais, centro-avante da nossa editoria de fotografia, veio estender a mão para me salvar do abismo de letras em que eu me encontrava e lembrar que existem outras imagens além das tipográficas. E o resgate veio através de uma simples frase: “saca só o trabalho dessa mina“.

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A mina em questão é essa aí de cima é Loretta Lux, alemã que usa o retrato como meio de expressão artística. Seu trabalho é moroso, demoraaaado – às vezes pode passar um ano inteiro para produzir três ou quatro fotos, mas atinge suas expectativas pessoais: alcança a aura de pinturas que lembram o Romantismo.

E não é só Loretta que parece estar feliz com seu trabalho. Com o reconhecimento internacional, ela foi uma das principais estrelas do Paraty em Foco – o mais conhecido evento sobre fotografia do Brasil, que encerrou sua edição de 2009 na semana passada. Hospedando-se fora de Paraty e fazendo questão de não ser fotografada nem filmada, sua reclusão também contribuiu para criar expectativa em torno de si. Quando subiu no palco para falar de seu trabalho, não decepcionou. O relato de Clicio Barroso, que esteve lá, é sensacional: leia aqui.

Para sacar melhor qual é a da mina recomendo duas entrevistas: essa e essa outra. Curtam.

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©Loretta_Lux

Fotos: Loretta Lux
Texto: Ale Lucchese

Fotógrafos-que-nos-fazem-viajar: Annie Leibovitz

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O caso entrou nos jornais há pouco tempo. Annie Leibovitz, geralmente tratada como “fotógrafa de celebridades”, foi à bancarrota e está devendo US$ 24 milhões – talvez perca, além de imóveis, os direitos autorais de todas as suas fotos. Pois é, é lamentável que só assim Os Estrangeiros puderam lembrar do quanto o trabalho de Leibovitz nos fez viajar e precisa sim adornar essas páginas. Desculpas feitas, vamos à ela.

A jovem Annie começou a fotografar quando estudava arte na Califórnia, na década de 1960. Estava fascinada pela portabilidade das câmeras, por poder fotografar seu cotiano, recortar a realidade com rapidez, magia e criatividade. Logo foi absorvida pela redação da eminente revista Rolling Stone e alçou voo com a equipe rumo à popularidade. Rapidamente Annie se tornou chefe de fotografia de uma das revistas  que mais rapidamente se tornou uma das publicaçõe mais influentes do mundo.

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Perfeccionista ao extremo, costumava tirar centenas de fotos para publicar até uma simples nota na revista. Viajou em turnê para fotografar a banda Rolling Stones e 1976, voltando com milhares de negativos e o vício aprofundado por pílulas, álcool e cocaína. O próprio editor da revista ficou feliz com sua saída para a revista de moda Vanity Fair, pois via que o meio rocanrol estava consumindo o corpo e os nervos da melhor fotógrafa que já tinha visto em ação. “A Rolling Stone sobreviverá sem Annie, mas Annie não sobreviverá com a Rolling Stone”, ponderou Jan Wenner, o eterno editor-chefe da publicação.

Na Vanity Fair, Leibovitz abandonou de vez o estilo rápido do fotojornalismo, fazendo ensaios com produções cada vez maiores. Máquinas e cenários cada vez mais caros se revertiam em capas que logo se esgotavam nas bancas de revista. Assim, todas as grandes publicações de moda passaram a encará-la como um luxo caro e necessário.

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A fotógrafa também foi se especializando em tirar a roupa de seus modelor. O papo é que no mundo fashion ela é conhecida por conseguir deixar seus fotografados “bem à vontade”. E já era assim nos tempos de Rolling Stone, quando ficou célebre por fazer fotos de John Lennon nu agarrado à Yoko Ono, poucas horas antes do ex-beatle ser assassinado.

Leibovitz foi duramente criticada pela imprensa em 2006, ao incluir em meio a uma exposição de seus trabalhos as imagens de sua ex-companheira, a celebridade intelectual Susan Sontag, já fragilizada pelo câncer, e até mesmo morta na sala dos fundos de uma capela funerária. “Leibovitz tratava Sontag como sua celebridade pessoal”, alguém influente disse.

O que esses bundas-moles não entendem é que não existem duas Annies Leibovitz: uma que vive e outra que tira fotos. É como dizer que foi pouco profissional Van Gogh pintar um quadro em que aparece com a (falta de) orelha enfaixada. “Cortar a própria orelha é problema pessoal do tio Gogh, ele que nos poupe de suas excentricidades”, diria o New York Times. A arte acompanha o artista em tempo integral – seja fazendo fotos pra Vanity Fair, no funeral da família ou dando cambalhotas no trampolim.

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Para conhecer mais, tem essa reportagem muito boa da New York Magazine (clica aqui), ou ainda o documentário Annie Leibovitz: a life through a lens.

Fotos: Annie Leibovitz
Texto: Ale Lucchese

Fotógrafos-que-nos-fazem-viajar: Sebastião Salgado

Hoje os estrangeiros iniciam mais uma sériebiografia-de-sebastiao-salgado (ontem foi a vez de “Os estrangeiros entrevistam” ) onde iremos mostrar fotógrafos que nós adoramos. Além de fazerem um trabalho muito massa, de serem pessoas que vivem de acordo suas próprias leis (isso é fundamental!), adoram pegar a malinha e cair na estrada. Hoje, pra começar bem, iniciamos com ninguém menos que Sebastião Salgado.

Tião – como é carinhosamente apelidado – definitivamente é o cara. Ainda trabalhando como economista para a Organização Internacional do Café e residindo em Paris, foi, a trabalho, para a África, levando uma maquineta emprestada da mulher Lélia. Lá fotografou muito e se apaixonou pelo ofício. Viu que a atividade poderia ser um instumento de denúncia da situação de miséria e fome de milhares de africanos que encontrou nessa jornada.

Abandonou a economia e passou a atuar profissionalmente como fotógrafo na Europa, primeiramente para a agência Sygma, após a Gamma e finalmente a Magnum. Cobriu diversos acontecimentos ao redor do mundo, tais como as guerras na Angola e no Saara espanhol, o seqüestro de israelitas em Entebbe e o atentado contra o presidente norte-americano Ronald Reagan, seu grande furo de reportagem. Tião, por um infortúnio, não conseguiu entrar no hotel onde estava o então presidente. Contudo ao sair, Reagan foi alvo de tiros por parte de sindicalistas. Salgado, bem posionado na rua, fez as melhores fotos e as vendeu para o mundo todo.

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Paralelamente ao trabalho fotojornalístico, Sebastião desenvolveu um engajado fotodocumentarismo, onde retratou as vítimas da seca no Sahel ao acompanhar o grupo francês Médicos Sem Fronteiras, povoados remotos na América Latina no trabalho intitulado “Outras Américas”, luta pela terra no Brasil em “Terra”,  a vida de refugiados e migrantes de diversos países do mundo em “Êxodos e crianças”, etc. Sempre buscando entender as diferentes realidades com as quais se deparava, integrando-se às pessoas comuns de uma forma bastante simples e natural, sem ostentação, além de trabalho duro e intenso.

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Texto: Thais Brandão
Fotos: Sebastião Salgado