Brinquedo novo

Alguns raros jornalistas saem da faculdade e logo conseguem um bom trabalho e começam a ganhar um bom salário. Não é o meu caso. Por isso, minha contenção de despesas fez que eu abandonasse o maravilhoso mundo dos filmes 120mm, migrando para os tradicionais filmes 35mm. Mas esse novo mundo também não deixa de ser maravilhoso, apesar de sair muito mais em conta.

Comprei uma câmerea Yashica Lynx 1000, de 1965 (paguei R$ 50) e acabo de revelar meu primeiro filme. Não tem fotômetro é o foco é feito por metragem, ou seja, será um belo desafio domar essa bichinha. Gostaria de ficar falando mais com vocês mas ainda tenho que fazer minha mala para ir para a Arca Verde. Claro, levarei a câmera. Volto na semana que vem com mais fotos e com histórias pra contar desses dias em São Francisco de Paula!

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Texto e fotos: Ale Lucchese

As estrangeiras

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É certo que quem curte lomografia já encontrou seu espaço aqui nesse blog. E é para esses, ou para quem quer se iniciar nessa prática que o post de hoje é dedicado. Comparamos aqui as duas câmeras lomográficas de 120mm mais populares para você conhecer melhor cada uma delas – e quem sabe decidir onde investir seu rico dinheirinho.

Como bom muquirana, começo considerando o preço. A Holga 120 CFN costuma variar entre R$ 170,00 e R$200,00. Enquanto isso, a Diana F+ beira em torno dos R$ 300,00. Se você anda muito mal das pernas, ainda há a opção de comprar a Holga 120 N (tudo igual a CFN, mas sem flash), que fica um pouco mais em conta. Mas, na buena, se você quer mesmo economizar, não se atire a fotografar em 120mm: os filmes são mais caros, o processo de revelação é mais caro, o processo de escanemento é mais caro… tudo é (bem) mais caro do que o tradicional 35mm. Há boas opções lomo em 35mm.

Mas se você está irremedivelmente seduzido pelo 120mm, devo dizer que o preço mais alto da Diana em relação a Holga pode compensar, dependendo do tipo de usuário que você é. Além de um livro bem bacana que acompanha a Diana, é preciso dizer que ela tem duas boas vantagens: o flash que é puro charme e uma maior variedade de opções de abertura de diafragama.

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O flash que acompanha a F+ é removível e vem com adaptador para ser usado em outras máquinas com sapata. Enquanto isso, a Holga CFN tem o flash embutido, não podendo ser usado em outras câmeras, deixando a tradicional russa mais volumosa que a Diana.

Além disso, a Holga conta com apenas duas aberturas de diafragma, enquanto a Diana apresenta quatro possibilidades. Essa vantagem da Diana permite obter maior sucesso em situações mais diversificadas de luz.

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Acima é possível ver, à direita, o símbolo de nuvem, que indica diafragma aberto para ocasiões de menos luminosidade, e à esquerda as quatro opções da Diana.

Então, se você pode investir mais e já saca um pouco de fotografia a ponto de não se atrapalhar com comandos de diafragma, valeria a pena investir na Diana. Agora, se você está começando, a Holga será certamente uma ótima opção.

Texto: Ale Lucchese
Fotos:  Thais Brandão

Os-Estrangeiros-entrevistam: Rebeca Rasel

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Artista plástica de 28 anos, Rebeca Rasel tem sido um dos nomes responsáveis por casar o uso de câmera de baixa fidelidade com produções e intervenções artísticas no Brasil. Tanto é assim que ela foi uma das selecionadas para representar o país na Lomo LC-A+ Race, iniciativa do site lomography.com que está fazendo a fetiche-câmera Lomo rodar o mundo.

Topei com Rebeca em uma pesquisa sobre lomografia para uma matéria que estou preparando sobre o assunto. Mestre em Artes Visuais pela UERJ, a artista carrega uma estreita ligação pessoal com a fenômeno lo-tech e o interpreta de maneira original e inteligente, como você vai ver nos trechos a seguir de nossa entrevista:

Sei que você é artista visual, mas não sei em que medida as câmeras de baixa fidelidade se inserem em seu trabalho. Gostaria que você explicasse melhor essa relação.

Sempre gostei do analógico, do low-tech, do antigo. Aos 10 anos, por exemplo, ganhei uma [máquina de escrever] Olivetti. E mesmo em épocas onde o computador já era parte da casa, dediquei meu tempo às cartas em máquina de escrever. Outro exemplo é minha coleção de vinis: em meio às pilhas de cds e mp3, é com prazer que ouço as texturas (e arranhões) de cada faixa do disco. E, em meio aos dispositivos digitais, é com minha primeira câmera, uma Minolta, herdada de meu avô, que guardo meus melhores registros. Cultivo esses hábitos e memórias até hoje. Nostalgia apenas? Acho que não…

Também sou adepta das feiras de antiguidades (aqui no Rio de Janeiro frequento a Feirinha da Praça XV aos sábados, no centro da cidade; em São Paulo, conheci a Feirinha do Bixiga que acontece aos domingos no bairro do Bixiga), pois me surpreende a diversidade de objetos que a cada dia são descartados e, de certa maneira, resignificados pelas pessoas, principalmente pelos artistas visuais.

Dessa forma, a fotografia analógica e o ‘low-tech’ são consequencia de minha memória e cotidiano. Mas, certamente, não descarto a praticidade e a óbvia qualidade de imagem obtida com os dispositivos digitais. São procedimentos distintos, claro, e ambos produzem resultados que despertam o meu interesse.

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Como foi a seleção para a LC-A+ Race?

Meu envolvimento com o LC-A+ Race, promovido pelo site Lomography,  se deu em meio a uma conversa com um amigo iraniano, Sohrab Mostafavi, que, além de trabalhar com fotografia e vídeo em seu país, tem um grande interesse pela Lomografia. Nunca iria imaginar que no Irã houvessem tantos intessados por esta prática, então, comecei a pesquisar no site Lomography os álbuns de artistas daquele país. Em meio às buscas, vi algumas chamadas sobre a LC-A Race. Escrevi para Ron Cruz, um dos organizadores/produtores do evento e, algum tempo depois, acho que um mês ou dois, recebi um email dizendo que fui selecionada para integrar o time de lomógrafos da América do Sul nesta LC-A Race. Fiquei muito surpresa! E recebi no mês de julho uma câmera Lomo LC-A para participar desta ‘corrida’. A câmera é incrível! Dentre as câmeras lomo que já utilizei, a LC-A foi a que apresentou os melhores efeitos de cores, mesmo em um filme comum de 35mm. Enfim, foi uma experiência e tanto, mas em apenas poucos dias, pois a câmera precisou seguir seu trajeto na corrida – em agosto a câmera esteve com o fotógrafo Julio França (SP) e, desde então, segue para outros estados brasileiros e também Argentina e Chile.

O que mais te encanta nas câmeras de plástico? O que você considera a grande vantagem em relação ao digital? O que considera desvantagem?

Para um fotógrafo profissional talvez não seja interessante trabalhar com um dispositivo que tem como marca a imprevisibilidade de seus registros (por exemplo, é comum que uma câmera lomo tanto “estoure o contraste” como produza áreas e bordas excessivamente escuras no frame), mas creio que esta aparente precariedade na construção da imagem seja propícia a todo um segmento de jovens artistas visuais e fotógrafos (chamados “experimentais”) que encontram nestes “acasos” e imprevistos um projeto artístico singular e em potencial.

No entanto, por essa aparente facilidade em se trabalhar com lomos, é comum encontrarmos comentários como “Ah! Isso eu também faço” (porque é até possível, com a ajuda do tal “acaso”, que se obtenha um ótimo resultado) ou quaisquer outras falas depreciativas destinadas aos fotógrafos experimentais. Concordo que há uma linha tênue entre o belo acaso e a boa fotografia, mas, se pensarmos que um artista não é feito apenas de uma única boa idéia (ou seja, de uma única boa foto resultante de uma câmera low-tech, por exemplo), será mais fácil perceber que para ser um bom artista é preciso que haja uma poética, um campo de pensamento, enfim, que a cada dia haja um desdobramento de tudo aquilo que o artista planejou e/ou intuiu. Realmente não basta apenas uma boa idéia. Trabalhar com arte é bem mais complexo que isso. É todo um processo – e pra toda a vida, inclusive.

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Encontre mais material de Rebeca Rasel em:

http://rebecarasel.blogspot.com (blog)

http://marciarebeca.blogspot.com (parceria com Marcia Abreu)

http://www.lomography.com/homes/rebecarasel (fotos aleatórias no lomography.com)

http://www.chiarotrends.com.br/ (blog sobre moda, arte, música e design no qual é colunista.

Fotos:  Rebeca Rasel  –  câmeras:  Fisheye (foto 01), ActionSampler (foto o2), LC-A+ (foto 03 e 05), e Zenit (foto 04).
Texto: Ale Lucchese

City (poetry and) caos

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Natália tinha quinze anos, juntou sua grana e finalmente decidiu: “vou comprar minha câmera”. Não demorou muito e estava passando suas economias para uma desconhecida atrás de uma catraca de metrô em São Paulo e recebendo uma misteriosa caixa em troca. Encontro terminado, cada uma seguiu seus próprios redemoinhos de fluxo de gentes. As mãos de Natália agora não suavam  mais e nem estavam frias, tudo tinha dado certo, a vendedora apareceu, repassou a máquina, pegou a grana, foi embora… Mas a inquietação era ainda maior:

– Mãe, olha só o que eu comprei!

– Mas isso é só uma câmera de plástico, minha filha…

O encontro de Natália com a vendedora não poderia ser mais coerente com sua arte: em meio ao caos urbano, Natália Tonda encontra os encontros, os desencontros, a euforia, a paz, a cor, as formas do disforme, a poesia. Tudo sobreposto, tudo em cortes, tudo em contínuos: tudo sincrônico como uma cidade. Alguém que emerge do fluxo pela sua imersão – e atenção – profunda no próprio fluxo. A vida acontece em catracas de metrô.

Hoje Natália estuda e trabalha com fotografia em Porto Alegre. Ainda usa a Colorsplash que comprou com quinze anos, uma Holga e uma Diana, além de uma Fisheye – que apesar de não funcionar, presta serviços decorativos. Conheça melhor o trabalho clicando aqui.

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Texto: Ale Lucchese
Fotos: Natália Tonda

Holga

Posto hoje aqui três imagens que fiz com um dos meus primeiros filmes com a máquina Holga – uma câmerazinha chinesa toda de plástico que tem o dom de demonstrar o sonho cotidiano dos sonâmbulos.

O filme é um 120mm preto e branco – Fuji Neopan Acros, iso 100. O processo de digitalização foi uma gambiarra que fiz fotografando com uma câmera digital os negativos frente à tela do computador, com todas as luzes apagadas. Aí joguei tudo no photoshop, inverti as cores, fiz os cortes necessários e – voilá! – taí o resultado. Não presta para ampliações, é demorado e chato, mas sacia a curiosidade. Aceito doações de scanner.

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Texto e fotos: Ale Lucchese

Flâneur lomográfico

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Wladymir Ungaretti coleciona horas e horas de olhares, conversas e imagens pelas ruas de Porto Alegre. Jornalista e professor universitário, Ungaretti dedica sua vida a aguçar o olhar crítico de seus alunos e leitores em relação à grande imprensa, assim como busca construir uma prática diferenciada do ofício – tanto na apuração, quanto em texto e imagens.

O estilo flâneur tem se firmado na virada editorial do seu blog Ponto de Vista, projeto que já completou seu terceiro aniversário. A câmera de Ungaretti não é uma barreira, e sim um instrumento que o ajuda a se aproximar dos personagens que encontra pelas calçadas. E também não é uma máquina de alcançar resultados, e sim uma peça que desvela e o faz mergulhar ainda mais fundo na verdade labiríntica que se esconde por trás desta selva de pedra.

O ensaio abaixo é resultado dessa prática. Feito com uma câmera lomográfica  – Holga, filme negativo 120, Iso 400 -, vemos a grande angular de plástico abaular construções, saturar cores e aprofundar contrastes, fazendo o observador repensar e redescobrir a paisagem.

Desde 1973, quando comprou sua primeira Pentax na lendária casa Cambial, Ungaretti vem colecionado negativos e mais negativos de Porto Alegre – ele estima ter em torno de seis mil fotogramas. Ainda é preciso somar as imagens digitais – sim, o flâneur chegou a ter uma Mavica (aquela câmera que funciona com um disquete), e continua acompanhando e experimentando novas  (e velhas) tecnologias.

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Veja e leia mais no blog Ponto de Vista.

Fotos: Wladymir Ungaretti
Texto: Ale Lucchese

Processo cruzado (X-pro)

Há longas autoestradas que não nos levam a lugar algum; e há vicinais tortuosas e cheias de percalços que nos fazem acreditar que estamos completamente perdidos que até demoramos a perceber quando chegamos ao nosso verdadeiros destino. O poeta Wladymir Ungaretti pegou uma dessas estradas do segundo tipo há pouco tempo: seu blog Ponto de Vista está sob censura devido a um processo judicial que Ungaretti está enfrentando devido a críticas que fez ao trabalho de um fotógrafo da grande imprensa gaúcha.

Mal sabia Ungaretti que a limitação de assuntos  sobre os quais poderia escrever no Ponto de Vista fez com que ele se dedicasse com mais afinco a um tema que era marginal naquele veículo: a fotografia. Em seu post de hoje, ele publicou algumas fotos minhas que fazem parte de um ensaio que fiz em x-pro (processo cruzado) na orla do lago-ou-rio Guaíba. Seguem aí outras fotos desse trabalho.

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Imagens feitas com uma Nikon N80, slide Sensia Iso 100 revelado como se fosse um negativo (processo cruzado), scaneadas direto do slide, sem ajustes digitais posteriores. Revelar slides como se fossem negativos é mais barato, aumenta contrastes e troca as cores da imagem dando essa impressão de que as fotos tomaram chá de cogumelo. Experimente.

Texto e fotos: Ale Lucchese