Os-Estrangeiros-entrevistam: Arthur Simões – 1 de 2

Não dá pra negar: conhecemos o Arthur Simões através de uma entrevista no programa da Ana Maria Braga. Sim, a gente já tinha ouvido falar de um tal brasileiro que estava dando a volta ao mundo de bicicleta, percorrendo na base da pedalada mais de 40 países. Mas foi ali, em frente ao Louro José, que descobrimos que ele já tinha voltado, depois de três anos sobre a magrela. Então conseguimos anotar seu nome e sair atrás da entrevista. E é esta que disponibilizamos aqui – entre hoje e amanhã – em duas partes:

Índia - Alagado_4

Arthur alagado na Índia

Começamos perguntando como ocorreu a idéia de fazer uma viagem tão longa. Arthur logo me surpreende dizendo que o projeto nasceu depois de ele ter se formado em Direito, com uma premiada monografia sobre A Desobediência Civil. Descobri que estávamos entrevistando o cara certo. A viagem era uma forma de desobedecer a ordem: era hora de abandonar o papo sobre roteiros,  equipamentos e dicas de viagem, e partir para o que interessa – a alma. Foi nesse momento que Thais aparece trazendo o gravador que eu tinha esquecido no quarto, Arthur falava de como conseguiu seus patrocínios:

[o prêmio para a monografia] me ajudou a ganhar ajudou a ganhar uma credibilidade, talvez para as empresas não importasse tanto o que eu estivesse escrevendo, mas isso já me apresentava com certa credibilidade. Eu era um marqueteiro de primeira viagem, e querendo propor uma viagem de bicicleta… Mas como eu iria chegar numa empresa e vender isso? Como você chegar até eles com uma idéia, com um projeto? Um projeto é como se fosse um filho, aí você pega esse seu filho e coloca num pacote e tem que sair vendendo, tem que transformar aquilo em algo comercial também. Isso é uma coisa difícil: transformar aquele projeto, aquela ideologia, um projeto quase que ideológico, em algo comercial é um grande desafio. Você tem que ter cuidado para não deturpar o projeto, para não ser completamente vendido ao patrocinador, porque o patrocinador às vezes quer que você faça algo completamente diferente. Você tem que manter a linha de raciocínio, manter a linha principal, alguns ideais ao menos, as idéias-base, e depois buscar o dinheiro, porque sem ele não aconteceria também.

Jordânia - Estrada de camelo_5Na Jordânia

E como foi a tua experiência de desobedecer e ver esse mundo com teus próprios olhos e não como tentam retratar para ti? Em que sentido tu te surpreendeu, ou que não te surpreendeu?

Uau! Isso é uma coisa que eu sempre falo: eu lembro de quando eu estava nos Emirados Árabes, eu encontrei um brasileiro que estava viajando, não numa viagem tão grande como a minha, mas já tinha viajado um pouco, e a gente começou a conversar sobre Índia. E eu não gosto da Índia, e ele também não gostava. Então a gente foi falando sobre esse e sobre outros países, aí chegamos à conclusão de que a gente sai de casa pra ver as belezas do mundo, mas acaba se deparando com muito mais coisas feias do que belezas em si. A parte mais poética da jornada realmente existe, mas durante a viagem mesmo é quase que um exercício de sobrevivência às vezes, como na África. Quando você ta brigando pra sobreviver é difícil de encontrar uma poesia, essa é a realidade. E não é nem só você brigando pra sobreviver, talvez isso seja o de menos, o problema é você olhar ao seu redor e ver gente morrendo de fome, ver gente morrendo de diarréia, uma diarréia que você ia curar aqui com um comprimido comprado em qualquer farmácia por cinco reais. Lá não tem, cara! Em alguns lugares a população não tem dinheiro pra isso. Então você começa a ver isso… E não é só um caso, são milhares de casos…

Paquistão - Protegido_9Proteção no Paquistão

É generalizado…

Sim! É generalizado! É a forma de viver deles, dessa gente. Muita gente no mundo ta passando fome. Sabe esses números que a gente ouve: “atualmente no mundo tem ‘tantos milhões’ de pessoas passando fome”? Isso a gente não consegue entender, isso é só um número que vem até a gente. A gente está anestesiado com tanta informação ruim, tanta fotografia de guerra, tanto filme de desastre, tanta notícia ruim que chega até a gente… Eu não acho que isso gera conscientização, isso gera anestesiamento. Então a gente vê as pessoas falando “eu estou levando essa consciência”… Ta, tudo bem, ta levando conscientização, mas ao mesmo tempo você está transformando aquilo em algo simples, algo que se tornou corriqueiro, banal, que faz parte da rotina das pessoas. Quando você está ali na estrada sozinho, só você em frente a isso, você consegue sentir um pouco mais, é você imerso naquela cultura. Não é você levando um pedaço da sua cultura para dentro de outra, não é uma ilha: é realmente um mergulho quando você vai sozinho. E ver isso de perto realmente causa uma certa dor, ainda mais pelo fato de você se sentir impotente, você não poder ajudar essas pessoas – porque são milhões – e pelo fato de o mundo ter condições de ver isso e não estar vendo, porque cada pessoa acaba vendo a realidade que quer, e essa realidade a mídia cria. Então não dá pra falar “cadê a ajuda dos americanos e dos europeus?”: eles simplesmente preferem não ver isso. É tão duro e tão difícil de ajudar que isso acaba sendo esquecido, acaba sendo pouco falado, e quando chega na gente, a gente já está acostumado. “Mais uma morte na África? Normal…’, só que não é normal. Não é normal. Porque essas pessoas são como a gente, a diferença entre você, eu, uma pessoa ali na África, realmente é nula, é quase nenhuma. É só uma questão de ter nascido ali, ou ter nascido aqui, só isso. Então quando você percebe que as diferenças praticamente não existem é um momento muito doloroso. E você vê que também não tem previsões de melhora: a gente nasceu e já era assim, e a gente vai morrer e vai continuar assim. Conseguir se acostumar com essa idéia é algo difícil, e eu não consegui me acostumar ainda.

Peru - Pequeno Oasis_10Pequeno oásis no Peru

E você planeja levar para frente esse trabalho de algum modo, de que forma?

O que mais chama a atenção na minha viagem é a bicicleta. Eu vejo isso em relação às pessoas, o pessoal chega pra mim “nossa, você viajou tanto numa bicicleta! Como você agüentou?”. Mas, para mim, um dos pontos principais dessa empreitada é o lado social, o lado de pesquisa, de querer gravar e compartilhar um pouco daquilo que eu estava vivendo com as pessoas que ficaram…

No mais, fica aquela coisa do inusitado da bicicleta…

É, não vou negar, ela é inusitada mesmo, e me proporcionou coisas que, sem ela, não teriam vindo. Só que, ao contrário do que muita gente pensa, eu não sou um cara que fica fazendo política pró-bicicleta. Eu gosto de bicicleta, pedalo desde pequeno, pedalo hoje aqui em São Paulo; mas não saio fazendo bicicletada ou passeata pró-bicicleta. Eu acho que vai ter um momento que isso vai acontecer, talvez a partir do momento em que as pessoas começarem a pedalar um pouco mais… Mas, ao mesmo tempo, eu tenho um outro lado que é o lado de levar um pouco dessa consciência do que a gente não vê, o lado de quebra de paradigmas, coisa que eu falava desde a época da faculdade. Se a gente não quebrar, se não houver um rompimento, se a gente não olhar com outros olhos aquilo que a gente julga como natural, não vai ter como sair dessa realidade. Você tem que olhar com olhos mais frescos, mais inocentes, nossa realidade.  E é isso que eu gosto de fazer, e é isso que eu fiz um pouco com a minha viagem. Então, hoje em dia me perguntam “Você tem planos de continuar com a bicicleta?”. Hmmm… não! [risos] Eu continuo pedalando, mas não tenho nenhum projeto de uma viagem como essa. Eu gostaria de fazer uma viagem até mesmo de carro ou de moto, porque eu gosto de viajar por terra, de um modo que eu conseguisse levar mais equipamento e até mesmo uma equipe. E aí, com essas pessoas, realmente fazer algo mais documental, algo também um pouco menos imparcial. E atualmente, estou estudando fotografia, pintura, uma série de coisas, e estou indo mais pra esse lado artístico e de tentar retratar uma realidade. A base segue sendo praticamente a mesma: de continuar vendo o inusitado, com um olhar fresco em relação ao diferente, duvidar da nossa própria realidade, e tentar compartilhar um pouco disso, pelo menos com aqueles que tem interesse.

Laos - Atravessando o Mekong_6

Atravessando o rio Mekong no Laos

É ajudar a ver com olhos livres…

Sim, mudou muito minha idéia sobre a colaboração que a gente pode dar. Ao viajar, pelo menos no princípio da viagem, eu tinha a idéia de ajudar de alguma forma. Mas eu fui vendo que não dava, cara. É muito complicado. Quando você institucionaliza a ajuda, você já perdeu. Nem vem, não tem muitas exceções. Pode ser ONU, pode ser o que for, cara. Ainda mais porque você está lidando com gente de outros países e geralmente os países desenvolvidos tem uma cultura completamente diferente, então você cria um neocolonialismo ali, você acaba destruindo a base da cultura. E essa é a base do problema: a destruição cultural, a perda de identidades. Eu acho que se a gente fizer o que estiver ao nosso alcance, se cada um fizer, está aí uma das saídas.

Amanhã continua…

Fotos: Arthur Simões
Texto abertura: Ale Lucchese

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