Os-Estrangeiros-entrevistam: Rebeca Rasel

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Artista plástica de 28 anos, Rebeca Rasel tem sido um dos nomes responsáveis por casar o uso de câmera de baixa fidelidade com produções e intervenções artísticas no Brasil. Tanto é assim que ela foi uma das selecionadas para representar o país na Lomo LC-A+ Race, iniciativa do site lomography.com que está fazendo a fetiche-câmera Lomo rodar o mundo.

Topei com Rebeca em uma pesquisa sobre lomografia para uma matéria que estou preparando sobre o assunto. Mestre em Artes Visuais pela UERJ, a artista carrega uma estreita ligação pessoal com a fenômeno lo-tech e o interpreta de maneira original e inteligente, como você vai ver nos trechos a seguir de nossa entrevista:

Sei que você é artista visual, mas não sei em que medida as câmeras de baixa fidelidade se inserem em seu trabalho. Gostaria que você explicasse melhor essa relação.

Sempre gostei do analógico, do low-tech, do antigo. Aos 10 anos, por exemplo, ganhei uma [máquina de escrever] Olivetti. E mesmo em épocas onde o computador já era parte da casa, dediquei meu tempo às cartas em máquina de escrever. Outro exemplo é minha coleção de vinis: em meio às pilhas de cds e mp3, é com prazer que ouço as texturas (e arranhões) de cada faixa do disco. E, em meio aos dispositivos digitais, é com minha primeira câmera, uma Minolta, herdada de meu avô, que guardo meus melhores registros. Cultivo esses hábitos e memórias até hoje. Nostalgia apenas? Acho que não…

Também sou adepta das feiras de antiguidades (aqui no Rio de Janeiro frequento a Feirinha da Praça XV aos sábados, no centro da cidade; em São Paulo, conheci a Feirinha do Bixiga que acontece aos domingos no bairro do Bixiga), pois me surpreende a diversidade de objetos que a cada dia são descartados e, de certa maneira, resignificados pelas pessoas, principalmente pelos artistas visuais.

Dessa forma, a fotografia analógica e o ‘low-tech’ são consequencia de minha memória e cotidiano. Mas, certamente, não descarto a praticidade e a óbvia qualidade de imagem obtida com os dispositivos digitais. São procedimentos distintos, claro, e ambos produzem resultados que despertam o meu interesse.

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Como foi a seleção para a LC-A+ Race?

Meu envolvimento com o LC-A+ Race, promovido pelo site Lomography,  se deu em meio a uma conversa com um amigo iraniano, Sohrab Mostafavi, que, além de trabalhar com fotografia e vídeo em seu país, tem um grande interesse pela Lomografia. Nunca iria imaginar que no Irã houvessem tantos intessados por esta prática, então, comecei a pesquisar no site Lomography os álbuns de artistas daquele país. Em meio às buscas, vi algumas chamadas sobre a LC-A Race. Escrevi para Ron Cruz, um dos organizadores/produtores do evento e, algum tempo depois, acho que um mês ou dois, recebi um email dizendo que fui selecionada para integrar o time de lomógrafos da América do Sul nesta LC-A Race. Fiquei muito surpresa! E recebi no mês de julho uma câmera Lomo LC-A para participar desta ‘corrida’. A câmera é incrível! Dentre as câmeras lomo que já utilizei, a LC-A foi a que apresentou os melhores efeitos de cores, mesmo em um filme comum de 35mm. Enfim, foi uma experiência e tanto, mas em apenas poucos dias, pois a câmera precisou seguir seu trajeto na corrida – em agosto a câmera esteve com o fotógrafo Julio França (SP) e, desde então, segue para outros estados brasileiros e também Argentina e Chile.

O que mais te encanta nas câmeras de plástico? O que você considera a grande vantagem em relação ao digital? O que considera desvantagem?

Para um fotógrafo profissional talvez não seja interessante trabalhar com um dispositivo que tem como marca a imprevisibilidade de seus registros (por exemplo, é comum que uma câmera lomo tanto “estoure o contraste” como produza áreas e bordas excessivamente escuras no frame), mas creio que esta aparente precariedade na construção da imagem seja propícia a todo um segmento de jovens artistas visuais e fotógrafos (chamados “experimentais”) que encontram nestes “acasos” e imprevistos um projeto artístico singular e em potencial.

No entanto, por essa aparente facilidade em se trabalhar com lomos, é comum encontrarmos comentários como “Ah! Isso eu também faço” (porque é até possível, com a ajuda do tal “acaso”, que se obtenha um ótimo resultado) ou quaisquer outras falas depreciativas destinadas aos fotógrafos experimentais. Concordo que há uma linha tênue entre o belo acaso e a boa fotografia, mas, se pensarmos que um artista não é feito apenas de uma única boa idéia (ou seja, de uma única boa foto resultante de uma câmera low-tech, por exemplo), será mais fácil perceber que para ser um bom artista é preciso que haja uma poética, um campo de pensamento, enfim, que a cada dia haja um desdobramento de tudo aquilo que o artista planejou e/ou intuiu. Realmente não basta apenas uma boa idéia. Trabalhar com arte é bem mais complexo que isso. É todo um processo – e pra toda a vida, inclusive.

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Encontre mais material de Rebeca Rasel em:

http://rebecarasel.blogspot.com (blog)

http://marciarebeca.blogspot.com (parceria com Marcia Abreu)

http://www.lomography.com/homes/rebecarasel (fotos aleatórias no lomography.com)

http://www.chiarotrends.com.br/ (blog sobre moda, arte, música e design no qual é colunista.

Fotos:  Rebeca Rasel  –  câmeras:  Fisheye (foto 01), ActionSampler (foto o2), LC-A+ (foto 03 e 05), e Zenit (foto 04).
Texto: Ale Lucchese
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