Não tá morto quem peleia

Na edição #14 da revista O Dilúvio, os Estrangeiros mais uma vez deram as caras. Abaixo, a matéria.

Vinis_1

Em meio à euforia da “volta do vinil”, um dos maiores colecionadores de discos do Brasil mora em Porto Alegre, vive da marcenaria e de outros bicos, mas não está ligando muito para tudo isso.

Vilmar Cunha me esperava às nove da manhã, com treze mil discos, dois copos brancos de gelo e uma lata de cerveja no congelador. Não se trata de um colecionador de discos à la Tinhorão ou Ed Motta, muito menos de um bebum: a lata só descansava solitária na geladeira por puro senso de bom anfitrião, e os discos só estavam lá porque… porque, sei lá, porque é bom ouvir discos. Há duas semanas liguei:

– Seu Alexandre, não pode vir agora, me dá uns dez dias pra arrumar as coisas.

Tudo deveria estar impecável. Tudo estava impecável. Também pudera:

– De gente estranha, o senhor é o único que entrou aqui pra ver meus discos…

Vinis_3

Privilégio de quem trabalha n’O DILÚVIO. A gente ganha pouco, mas vive muito. Mas chega de auto-publicidade, o que interessa é que Vilmar tem uma coleção de bolachões que supera as dez mil unidades do lendário Kid Vinil, e está se aproximando dos 20 mil itens de Ed Motta. Não é nenhum estudioso de música popular, não trabalha no meio musical, nem está atrás de raridades para guardar ou exibir aos amigos, muito menos acessa a internet para acompanhar os lançamentos da indústria gringa. Ele empresta os discos a apenas um conhecido, um companheiro de viagens e outras estripulias que Vilmar apronta aos 58 anos. Volta e meia o cara pega emprestado um disco do Roberto Carlos, mas sofre a vigilância constante do colecionador, que tem uma relação quase paternal com as treze mil crias. “Eu fiz um cartão escrito ‘compro e vendo discos’, mas na verdade eu só compro, sou apegado a eles”, explica ao mostrar seu cartão pessoal impresso em duas faces: de um lado Vilmar marceneiro, do outro, Vilmar colecionador de discos.

O marceneiro começou a colecionar vinis há aproximadamente uns quinze anos, quando começou a fazer fretes com uma kombi que tem até hoje. Ganhava discos dos clientes que estavam migrando para o cedê e ia guardando tudo. Começou também a comprar. “Mas o que tu curte mesmo, Vilmar?” Música tradicional mexicana, Agnaldo Timóteo, Elvis Presley, Teixeirinha, Roberto Carlos, Altemar Dutra, Trini Lopez, duplas sertanejas antigas, todos aqueles grandes cantores dos anos 60 e 70. Chega a ser deliciosamente curioso o modo como ele simplesmente ignora qualquer rótulo ou gênero musical, apenas ouve artistas que gosta e vai conhecendo outros porque tem o coração aberto a toda musicalidade que lhe cai nas suas mãos.

Galena com um prego na ponta

Vinis_2

Envolto por paredes cheias de discos novos vindos do hemisfério norte, Getúlio Costa tem uma importante loja de vinis na capital. Sua “Boca do Disco” é uma vitrine do que acontece pelo mundo na tão apregoada “volta do vinil” que Vilmar já disse ter ouvido falar: discos em sua maioria novos, com preço médio em torno de R$ 80, a maioria deles pesando 180 gramas, o que garante durabilidade e aviva o som dos graves, coisa bem diferente dos vinis que estávamos acostumados a encontrar no Brasil quando essa era a mídia padrão da indústria musical. Lojas virtuais como a Amazon têm dedicado sessões especiais só para os bolachões, tendência que a Livraria Cultura seguiu no Brasil. Além disso a maioria das bandas gringas têm lançado seus álbuns nesse formato, assim como Lenine, Ed Motta e Los Hermanos fizeram por essas terras.

Natural de Butiá, município localizado a 78 km de Porto Alegre, Vilmar veio para a capital aos dezessete anos. Sonhava com a vida agitada da metrópole. Trabalhou em várias lugares e em várias funções, na Borregard de Guaíba, em hotéis do centro, em uma empresa que instalava painéis luminosos, entre outras. Resolveu então aplicar o que tinha aprendido em marcenaria com seu primeiro sogro, e passou a trabalhar como autônomo, mas sentiu a fome chegar bem próxima até conseguir um círculo de clientes fiéis. Autodidata por natureza, foi aprendendo de tudo um pouco, hoje se orgulha ao dizer que faz “tudo numa casa”, é aquele cara que tu pode chamar pra arrumar desde o cano do teu chuveiro até a fiação elétrica da tua casa. “É tudo feitio meu”, vai dizendo Vilmar ao apresentar seu trabalho por todos cômodos: o fogão a lenha, as paredes, os azulejos colocados no capricho, a serpentina que leva água quente para o banheiro, as máquinas com que trabalha a madeira, as grandes estantes transbordantes de discos…

Mas Getúlio emenda: “não adianta o cara estar com uma galena em casa com um prego na ponta e querer qualidade”. Sim, nada é tão simples no mundo do vinil. Esse retorno que traria, em tese, mais qualidade sonora aos nossos ouvidos, depende da boa prensagem do vinil e também de aparelhos que possam reproduzir com fidelidade a música gravada nos sulcos. Como resume o professor de física da UFRGS, Ricardo Francke: “se você quer um bom aparelho de som vai ter que pagar, e, para um dado preço, o cedê é de melhor qualidade que o elepê”.

DSC07761

Tendo a mesa de toca-discos como ambiente de trabalho, DJ Anderson, da banda Ultramen, sabe bem disso. De suas pick-ups, consegue retirar tudo o que o vinil tem para dar: “no áudio, a equalização dele é mais definida, principalmente os graves, ele preserva toda qualidade de som que eu busco na hora da gravação”.

Para diferenciar, em termos físicos, os vinis dos cedês, contamos com o depoimento esclarecedor do professor Francke: “O sinal de áudio que desejamos arquivar num cedê é amostrado 44100 vezes por segundo. Cada um desses valores é digitalizado com 8 bits. Isto quer dizer que um voltagem D é escrito aproximadamente por D = b0x2+b1x2+b2x4+b3x8+ b4x16+b5x32+ b6x64+ b7x128. Observemos que o menor valor é 0 com todos os b0=0, b1=0 b2=0, etc. E o maior valor que podemos escrever é 255 com b0=1, b1=1, b2=1,….e b7=1. O que acontece, então, se o valor que queremos representar é 66,23. Neste caso os 66 podem ser escritos como 2 + 64 isto é b1=1 e b6=1 e todos os outros b igual a zero. Mas o que acontece com o 0,23? Ele é perdido. No caso do elepê, a agulha vibra com a freqüência do sinal de áudio. Essa vibração é captada eletricamente e amplificada.” Entendeu? Eu também não. Mas sente com Vilmar e deixe ele colocar qualquer um dos seus discos em qualquer um de seus onze toca-discos e você vai sacar tudo no ato.

DSC07775

Fotos: Thais Brandão e Ale Lucchese

Texto: Ale Lucchese e Glauber Winck

Anúncios

Um comentário sobre “Não tá morto quem peleia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s