Helena

.
Abraço teu tronco com minhas pernas
e teu pescoço tranforma em colar meus braços
Sinto o mundo me levantar
na alavanca dos teus joelhos
Todo meu corpo suspenso
Tua carne
meu único eixo

Poema de Helena

Na semana passada, Wladymir Ungaretti passou a publicar textos esparsos da autora dos versos acima, encontrados em um lote de livros adquirido num grande sebo da capital.  Atraído por alguns títulos anarquistas que ainda não possuía em sua biblioteca, bem como por uma edição limitada do Catatau autografada pelo próprio Leminski, Ungaretti percebeu que aquelas duas caixas que o sebo acabara de receber em sua presença poderiam guardar ainda maiores preciosidades. Naquela manhã teve que voltar de táxi para casa – e ainda deu uma gorjeta ao motorista para descarregar as caixas bem no meio da sua sala de estar.

Aos poucos, Ungaretti começou a selecionar o que havia de melhor em sua aquisição. Havia uma baboseira infinita de poetas românticos reeditados; mas, entre um Álvares de Azevedo e outro, retirava mais um livro do Leminski, uma edição francesa de A Desobediência Civil, antigas traduções portuguesas de Walt Whitman… Já sentia que havia feito um bom negócio.

Mas foi só quando abriu a segunda caixa de livros que o colecionador se deu conta de que tinha em mãos algo verdadeiramente único. Havia algumas folhas mimeografadas, meio borradas pelo tempo e pela umidade, mas não havia como duvidar de que eram aquilo mesmo: poemas eróticos. A partir daí, Ungaretti voltou a revisar todos os livros que tinha visto anteriormente, e encontrou folhas de caderno esparsas entre os tomos. Algumas eram cartas, outras rascunhos, ou ainda trechos de poemas e traduções. Tudo bastante informal e desorganizado, geralmente assinado com “Helena” ou simples e sensualmente grafado com um  “H”.

O próprio Ungaretti lembrou da militante anarquista que distribuia textos eróticos na saída de colégios e de igrejas do centro de Porto Alegre, nos anos 1970. Os papéis encontrados parecem coincidir com esta personagem, mas encontrá-la ou ainda traçar um perfil desta – mesmo que mínimo – tem se revelado uma tarefa das mais árduas e pateticamente irritantes. As informações são confusas e muitas vezes contraditórias, cada vez que descobrimos algo novo, parece que afundamos ainda mais no mesmo lugar. Nossa pesquisa continuará, mas por enquanto Helena tem sido um enigma inquietante e, devo admitir, muito bom de conviver.

Texto: Ale Lucchese
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4 comentários sobre “Helena

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