Sem buscar, pré-radical mente

“Subam, subam depressa!”, ele instiga aos berros, enquanto segura o volante com uma das mãos e dispara feroz sua metralhadora giratória com a outra. Os alunos sobem prontamente, carregam os rifles espalhados pelo chão e começam a atirar nos zumbis que se agarram ao jipe. Enquanto isso, ele dá a partida, confere se todos estão a bordo, e alcança rapidamente os cento e sessenta quilômetros horários. Ele sobe meio-fios, desvia mortos-vivos – olé! – e em nenhum momento deixa o vento levar seu impecável chapéu panamá.

Chegamos atônitos ao que parece o abrigo. Não rodamos tanto, mas ninguém consegue dizer onde está. O homem do chapéu panamá grita ao portão: “rápido, rápido, eles estão vindo!”. Uma criança abre, o jipe entra e seus faróis iluminam dois vultos: uma negra e um alemão cabeludo rezam ajoelhados em frente a um ícone, uma espécie de Shiva com mil pernas ao invés de mil braços, moldada em argila ao invés de metal. Eles sorriem para nós brevemente, voltam-se ao ícone, e de mãos dadas continuam a prece. O mulatinho que nos abre a porta já voltou a brincar com um baralho sem figuras.

Passamos a noite sonhando cada um o sonho do outro. Escorregávamos de espectro em espectro, como num espiral sem direção, um mar fantástico de corações, serenidade e êxtase. E, desse saltar por órbitas e almas, fizemos o sol nascer. O homem do chapéu panamá aparece, já agitado, e dá a diretriz: “precisamos sair, precisamos trazer mais gente para o abrigo antes que o sol se ponha e os zumbis saiam e devorem todos”. Ele nos coloca em círculo, a estranha Shiva de barro no centro, e cada um retira de um calcanhar da imagem um grão de terra.

O portão é aberto, o sol quase nos cega, estamos em plena avenida Ipiranga. Vemos o mulatinho da noite anterior fumando um cigarro, o sinal fecha e ele começa a agitar seus malabares em frente aos carros desatentos. Olhamos para nossas mãos, os grãos de terra haviam se transformado em cartas, iguais àquelas que o menino embaralhava quando chegamos – sem figuras, apenas a mesma palavra escrita dos dois lados, uma palavra diferente por carta. O homem do chapéu panamá fecha o portão e nós estamos no meio da rua. Não precisou explicar nada: não tínhamos mais jipe, nem rifles, nem metralhadora, mas tínhamos o baralho. E era como estar armado até os dentes, desde que cada um soubesse todas as cartas dos outros. A partir daquela noite todos nós sabíamos.

A alucinação acima é o editorial que escrevi para a revista Três por Quatro do primeiro semestre de 2008 – tempo em que escrevia para sonhar. Hoje sou sonâmbulo.

Texto: Ale Lucchese
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Um comentário sobre “Sem buscar, pré-radical mente

  1. O que eu mais gosto desse texto é que a interepretação depnde do estado de espírito. Oh boy, é difícil não perder as cartas e se manter acordado ou ao menos sonhando.

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