A travessia iluminada de Gary Snyder

Acontece que talvez nenhum de nós conhecesse Gary Snyder se ele não escrevesse versos e fosse um dos grãos de pólen dando cotoveladas até desabrochar o grande girassol que se tornou a cena cultural de São Francisco nos anos 1950. Na verdade, apenas um ano bastou para tornar Snyder um dos vagabundos mais conhecidos do planeta. Foi em 1955 que ele conheceu Jack Kerouac – a entidade que escreveu On the road – e foi até 1956, que eles viveram todas as iluminações que Kerouac publicou em The Dharma bums – algo como “Os vagabundos do Dharma”, mas que saiu no Brasil como “Os vagabundos iluminados”.

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Nas páginas de Kerouac, Snyder ganha o nome de Japhy Ryder. Snyder/Ryder é um jovem estudante de chinês clássico na Universidade de Berkeley, e que também escreve versos e estuda literatura inglesa. O rapaz tem 25 anos, uma bagagem enorme de leituras, conhece grande parte dos Estados Unidos viajando de carona, já foi lenhador e guarda florestal. Além disso, é filho de anarco-sindicalistas, sabe tocar um hinário anarquista no violão, e apóia qualquer manifestação política de esquerda, apesar de não acreditar em nenhuma delas: quer mesmo é fazer balançar até cair o way of life que vem se estabelecendo no pós-guerra.

Todas essas facetas já comporiam um grande personagem, mas guardo aqui nesse parágrafo o componente mais incendiário: Snyder é um zen-budista. Quando Kerouac nos faz sentar com Japhy Ryder para tomar um vinho barato e ler as traduções que está fazendo do poeta Han Shan, é perceptível que Ryder/Snyder não está traduzindo apenas versos, mas um modo de vida inteiro diverso do tecnicismo que o pós-guerra acelerava. Snyder dinamitava qualquer engrenagem técnica que estava estruturada ou se estruturando na cabeça de quem aceitasse sentar com ele no chão para tomar uma xícara de chá.

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Ryder/Snyder ia em busca de si mesmo escalando montanhas, vivendo de maneira harmonizada com o meio em seus exílios pela natureza selvagem. Tal como Han Shan escrevia seus versos em pedras e cavernas no século IX, o vagabundo iluminado fazia enormes mandalas de neve ou de arbustos, invocava mantras e praticava meditação zen entre um dia e outro de caminhada pré-organizada. Organização é tudo quando se está sozinho, dependendo apenas das próprias pernas e com pouca comida em um ambiente selvagem: um cálculo errado pode significar a morte. O auto-conhecimento de Snyder quanto às suas necessidades e o respeito pelo espaço em que se encontra fazem qualquer papo sobre “sustentabilidade” parecer balela. As jornadas do poeta nos ensinam a amar e fazer parte do mundo, e não a gestar seus recursos de maneira que a exploração possa continuar por mais tempo.

Canto para sonhar

“Os vagabundos iluminados” acompanha Snyder até sua partida em um navio para seus oito anos de treino formal zen no Japão, em 1956. O poeta retorna no fim dos anos 1960, com esposa e filho, estabelecendo-se em uma fazenda ao pé das montanhas no norte da Califórnia.

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Tão artesanal quanto sua morada, a poesia de Snyder toca fundo alguma coisa que ainda pulsa em nós de espontâneo e primitivo. Seus temas vão desde um simples banho no filho a uma possível harmonização da cultura dos índios americanos com a invasão européia. Também escreve ensaios sobre etnopoesia, zen-budismo, meio ambiente, e tantas outras coisas. Seu livro Turtle Island, de 1974, foi premiado com o Pulitzer de poesia.

Apesar de ter mais de duas dezenas de títulos lançados, são escassos seus materiais com tradução em português. A maioria deles leva mais em conta o lado ensaísta de Snyder, em detrimento do poeta. Recentemente a Azougue Editorial lançou uma coletânea com seus poemas e ensaios, intitulada “Re-habitar”, mas nada de livros completos por essas bandas.

Outras travessias

“Os vagabundo iluminados” foi lançado em 1958, e contribuiu para que o poeta fosse elencado até hoje na lista dos expoentes da geração beat. Snyder não acha isso ruim, mas esclarece que teve pouca participação nas loucuradas libertárias daqueles anos em São Franciso, e que só manteve maior contato com Allen Ginsberg depois dos anos 1950, na medida em que crescia o interesse de Ginsberg pelo zen.

Ginsberg foi quem escreveu Uivo, o poema, digamos, “de estréia” da geração beat. Uivo se configurou como uma espécie de manifesto de alguns iluminados de uma geração que queria qualquer coisa, menos uma família americana, uma casa com calefação e um forno elétrico. Queriam uma vida que pulsasse, e não a acomodação do “pesadelo com ar-condicionado”, como Henry Miller iria definir com precisão em outro momento.

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Em Back on the fire, lançado em 2007, um Gary Snyder com 77 anos conta como recebeu, a notícia de que Ginsberg estava falecendo em um hospital, vítima de câncer no fígado, em 1997. Ele conta com a simplicidade que só cabe aos poetas como Ginsberg “atravessou” a vida do coma para a morte, do mesmo modo que “o dia anterior a ontem atravessou as montanhas lá longe – no cheio florescer das cerejeiras”. É desse modo que Snyder atravessa a vida.

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão
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