O que tem atrás do muro

guaibaRio ou lago? Porto-alegrenses estão confusos com a recente descoberta de um corpo d’água chamado Guaíba

Era uma sexta-feira úmida e gelada, o público ia tomando o auditório do Studio Clio para discutir aquilo que o poeta chamou de “rio que nunca existiu”. Já se podia contar quase cinqüenta presentes quando Francisco Marshall, o mentor intelectual e espiritual daquele espaço, pegou o microfone para anunciar: “hoje estamos abrindo um novo espaço para a discussão de temas fundamentais para a sociedade porto-alegrense”. Aguardando subir ao palco, o geólogo e pesquisador de (boa) reputação internacional Rualdo Menegat observava Marshall apresentar a nova criação do Studio, o Projeto Ágora, que serviria para “especialistas de diferentes áreas” enriquecerem o debate a respeito de temas de repercussão local – uma espécie de praça pública com ar condicionado e bancos reservados pela internet.

Menegat ouvia tudo com a mesma palidez característica de homem de gabinete – seria difícil julgar se os elogios que Marshall o oferecia para legitimá-lo como grande estréia da Ágora o envaideciam ou já não sensibilizavam o pesquisador acostumado ao sucesso acadêmico. Mas com certeza não causavam admiração em um atento senhor vestido com grande apreço para a ocasião, os cabelos escovados e a barba bem feita, solitário em uma das últimas fileiras de poltronas.

Era incrível que este senhor sentado ali bem próximo à porta não chamasse a atenção dos que entravam procurando um lugar para assistir ao trabalho de Menegat: não fosse este homem, o evento em questão não teria razão alguma para existir. Foi este engenheiro e professor universitário aposentado que começou a deixar revoltos os ventos em torno do Guaíba, ao disseminar ainda no ano passado, através da internet, a apresentação de slides “Uma grande farsa”, na qual defendia que a escolha do conceito de “lago” para o Guaíba, ao invés de “rio”, teria motivações econômicas e políticas.

E era justamente sobre isso que Rualdo Menegat iria tratar em sua palestra naquela noite de 05 de junho: o porquê, segundo critérios acadêmicos e científicos, de o Guaíba ser considerado um lago. Não poderia ter pessoa melhor para defender esta idéia, já que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM) de Porto Alegre utiliza o Atlas Ambiental publicado por Menegat como referência para fiscalizar e zelar pela preservação do corpo de água em torno do qual a capital gaúcha foi se estabelecer.

Fiscalizar e zelar pela preservação… aí está o centro da discórdia. Mais do que fazer livros escolares e universitário trocarem palavras, escolher entre lago e rio implica escolher entre 30 ou 500 metros de preservação natural em torno do Guaíba. Segundo cálculos com base na lei de Áreas de Preservação Permanente (APPs), se o corpo de água fosse rio, precisaria de meio quilômetro intocável; se fosse lago a prefeitura precisaria assegurar menos de um décimo disso.

A farsa

WittlerHenrique Wittler:  “a lei está sendo descumprida”

A palestra seguida de debate realizada na Studio Clio pode ser considerada como uma espécie de “contra-evento”, uma resposta ao que aconteceu dentro do prédio da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no dia 07 de abril de 2009, quando Henrique Wittler debateu por quase duas horas com o público sua tese que é uma “farsa” a idéia de que o Guaíba seja tratado como lago. A duração, o formato, e a quantidade de público dos eventos coincidem; no entanto, ambos são diametralmente opostos em conteúdo.

O encontro promovido pelo Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS) no Plenarinho da UFRGS, teve o combativo Wittler expondo que o Atlas Ambiental não tem força legal para ser usado como bibliografia decisiva dos rumos da orla do Guaíba. O engenheiro demonstra que até a Constituição Estadual do Rio Grande do Sul usa a denominação de rio, bem como o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Henrique Wittler ainda deixa bem claro que sua luta é para que a lei seja cumprida: “não me interessa discutir se é rio ou lago, interessa é que a lei trata como rio, e a lei está sendo descumprida”. O palestrante ainda afirmou que, sendo assim, “a SMAM é uma instituição criminosa, que está acobertando uma farsa de políticos e empresários do ramo imobiliário”.

A “farsa”, segundo ele, teria sido promovida por um grupo de interessados em lucrar com os terrenos na margem do Guaíba, e teve como amparo técnico-científico o Atlas Ambiental de Porto Alegre. Os principais beneficiados seriam o Ministério Público Estadual, órgãos governamentais, tribunais e entidades esportivas.

Polemista confesso, Henrique Wittler não finge passar despercebido o tom agressivo de suas colocações; no entanto, mesmo que seu discurso possa sugerir muitas conspirações sem provas legais, e também crie muitos desafetos, o engenheiro se diz satisfeito com o resultado de suas lutas. “É assim que a gente tem conseguido chamar a atenção”, confessou ele quando recebeu nossa reportagem em sua casa.

“E de onde vem tanta disposição para arrumar confusão com tanta gente?”, perguntei ao perceber que Wittler parece ter poucos companheiros de luta, e também não está interessado em nenhum cargo público, nem é filiado a partido algum. “Eu não tenho nada pra fazer em casa”, ele ri, dizendo que sua preocupação com questões como essa já chegaram até a causar atritos com sua esposa. “Ela até briga comigo porque durmo com o rádio ligado, mas não posso deixar de acompanhar o andamento das coisas”, ele conta sem diminuir a convicção de que tem que seguir em frente.

Água por todos os lados

MenegatO homem por trás do lago: Menegat é autor do Atlas usado como referência pela SMAM

Mesmo que Wittler demonstre se importar menos com a questão técnico-científica, a classificação entre rio e lago a ser usada nas leis deve passar por essa instância. Nesse sentido, a idéia de que o Guaíba seja um lago parece ser bastante frágil.

“Uma porção de água cercada de terra por todos os lados”, esta perece ser a definição de lago mais popular, aquela que vimos em nossas apostilas e livros do colégio. No entanto, Rualdo Menegat chama a atenção de que esta é uma definição bastante simples e didática, que não reflete toda a complexidade que envolve a questão.

“Lagos podem ter ligação com outros corpos d’água”, esclarece Menegat citando ampla bibliografia sobre o tema. O pesquisador ainda demonstra vários exemplos de lagos em todo o mundo que tem ligações com o mar e outros rios, e nem por isso deixam de ser considerados lagos.

Além disso, se não fosse um corpo lacustre, segundo Menegat, o Guaíba também não poderia ser considerado rio, visto que tem suas margens recortadas e não paralelas. Ser um depósito de sedimentos e ter em torno de 80 por cento de sua água retida seriam características próprias de um lago.

Mas Menagat não deixa de demonstrar preocupação quanto ao cuidado de se preservar as áreas em torno do Guaíba. Pelo contrário, em seu gabinete no campus da UFRGS, ele expõe motivos que fazem os entornos de um lago muitos mais frágeis do que seriam os de um rio. “O prefeito de Porto Alegre deveria ir à Brasília buscar recursos que possam proteger nossa orla”, diz Menegat. Ele também lembra que 30 metros seria o mínimo garantido por lei, mas o Estado e a Prefeitura poderiam aumentar essa área.

Durante a apresentação no Studio Clio, depois da palestra de Menegat, Henrique Wittler pediu a palavra e destilou um pouco do seu discurso, afirmando ainda acreditar que o Guaíba fosse um lago. Boa parte da platéia não o observou com muita simpatia, bem como Francisco Marshall, que estava coordenando o evento. Marshall protegeu Menegat, facultando até que ele não respondesse às acusações de ter participado de uma farsa. Mas o próprio encontro já era uma resposta ao trabalho de Wittler, por mais agressivo que fosse seu discurso, foi uma incoerência completa fingir que sua fala não fazia sentido e não merecia resposta. Porto Alegre, pelo visto,ainda carece de uma verdadeira ágora.

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão (exceto foto de abertura – Ale Lucchese)
Anúncios

3 comentários sobre “O que tem atrás do muro

  1. Não entendi. Desculpe meus poucos neurônios. Se para o Eng, Henrique ” não me interessa se é rio ou lago” porque um ataque tão contundente ao Prof. Menegat? O cumprimento da Lei, nada tem haver com um trabalho acadêmico. Aliás, na Academia não existe consenso sobre a matéria. Que objetivos pretende com um discurso que desqualifica um professor que é admirado por seus alunos? E por seus pares? Um discurso vigoroso não pode ser ofensivo ainda mais num debate em que a disputa tem que ser deixada de lado. Achei muito deselegante a atitude do Eng. Saudações.

  2. “Porto Alegre, pelo visto,ainda carece de uma verdadeira ágora.”

    Baita texto. Baita polêmica esta, mas, como não sou da área, me pronunciarei unicamente acerca da frase acima.

    As pessoas em Porto Alegre são refratárias à discussão. Não são todas, mas é fato que sempre que a discussão esquenta a “turma do deixa disso” entra em ação. Queria saber porquê, chuto que seja alguma herança da época da ditadura.

    Agora, isso acontecer numa pretensa ágora já é contradição demais.

  3. Valeu, Ana Lúcia!

    é, esse negócio de q td mundo tem q ser amiguinho é foda. Dá pra viver com discordância, aliás, é fundamental a discordância para a vida. Por isso empacamos assim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s