Estrangeiros entrevistam Humberto Gessinger

gessinger

Humberto Gessinger de alguma forma está por trás deste blog. Tudo começa quando em alguma esquina do acaso a gente topa com uma canção e descobre que – sim! – mais alguém sente a mesma estrangeirice que você e, além disso, consegue fazer a vida girar em torno dela. Entrar no palco impregnado sempre pelo mesmo brilho, apesar da batalha diária e autônoma de levantar e sempre revigorar seu nome como músico e  compositor é algo que não nos deixa esquecer o quanto é importante acreditar nas nossas visões e batalhar por elas.

Mas esse Humberto do parágrafo acima vocês todos conhecem. Fomos até ele para descobri outras facetas do eterno alemão-dos-Engeheiros-do-Hawaii. O resultado desmitifica o trabalho de músico estradeiro e apresenta um fotógrafo amador preocupado em não espantar as cenas com sua câmera.

Muitos músicos dizem que para uma banda perseverar é fundamental gostar de viajar, de pegar a estrada. Essa vontade de estar em trânsito te influenciou na hora de montar uma banda como a Engenheiros do Hawaii, ou o duo Pouca Vogal?

Viajar é preciso. Daí para gostar de viajar, já vai uma distância. Antes das bandas eu tinha viajado muito pouco. Prefiro chegar nas cidades à noite, no ônibus da banda. Chegando de avião, me sinto turista ou executivo. Chegando de madrugada , no ônibus, me sinto Clint Eastwood numa cidade deserta de bangue bangue.

Como figura pública, talvez seja difícil curtir os lugares que visita em virtude do assédio dos fãs – em muito lugares tua presença pode ser um ‘acontecimento’ que transforma a rotina habitual. Como é conviver com isso? Isso não colabora para que um trabalho que te daria liberdade para conhecer pessoas e lugares acabe na verdade fazendo com que tu fique mais recluso?

É, o observador acaba transformando o objeto. Mas há outras formas de absorver as características locais. As reações ao show são um bom indicativo de como uma cidade é.

Com tanto tempo na estrada a trabalho, curte ainda viajar só para relaxar?

Para mim, férias é estar longe de aeroportos e hotéis.

Gosta de registrar as viagens em fotos? E teu cotidiano? Que tipo de equipamento fotográfico usa?

A câmera tem que ser invisível, ou seja, um celular. Andar com máquina fotográfica parece que espanta as coisas interessantes. Com celular, a gente engana o destino. Tá sempre ali e nunca está. Só a Sony Ericsson tem feito celulares levando a foto em consideração. São os únicos com flash e resolução alta.

Você se sente um estrangeiro?

Viajando, não. Viajando, a estrangeirice é normal, sem estranhamento. Em Porto Alegre, me sinto. Nenhuma ilha do oriente é tão exótica quanto a esquina da tua casa, sempre igual, sempre outra.

Texto: Ale Lucchese
Foto: arquivo pessoal de Humberto Gessinger
Anúncios

Re-habitar

Arroio Diluvio-3

Não há como negar que somos estrangeiros ocupando terra de outrém. Não que a terra tenha dono, o fato é que estamos há quinhentos anos tentando plantar um modo de vida que não diz respeito a esse lugar. Pode ser daí que tenhamos perdido nossa conexão com a terra. O espaço aqui não é sagrado, o espaço é um obstáculo  para plantar aqui a Europa que foi negada a nossos ancestrais.

Impressiona como esse processo nos cega. E um bom exercío para enxergar melhor é plantar os pés em lugares que são apenas de passagem, vivenciar demoradamente o espaço que é não convencionado para ficar, e sim para atravessar. Olhar, ouvir, respirar.

Todas as fotos desse post foram feitas em uma caminhada por três quilômetros do Arroio Dilúvio: uma fonte de vida que pulsa no meio da metrópole, e que tentam fazer você crer que é barulhento, feio e perigoso. Não, não é. Basta parar e ver.

Arroio Diluvio-1

Arroio Diluvio-4

Arroio Diluvio-5

Arroio Diluvio-7

Arroio Diluvio-2

Arroio Diluvio-9

Arroio Diluvio-6

Arroio Diluvio-8

IMG_8774

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão – Câmera Canon Rebel XTi – ISO 100.

Bom dia

Ser açoitado diariamente por uma idéia fixa, estar obcecado por um projeto, é assim mesmo – apesar de parecer bem divertido quando já sabemos o final e basta esperar ele acontecer na tela do cinema. Como é bom babar e mascar pipoca. Já não é mais primavera.

Não vou pedir desculpas pelo pessimismo, ser inconveniente é uma importante função social.  O povo confundiu pensando que era o carnaval. É importante que eu passe mais horas do meu dia chapado do que são.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Não há comunicação possível.

Ou como pontua Henry Miller: “A arte de sonhar completamente desperto estará à alçada de todo homem um dia. Muito antes disso, os livros terão deixado de existir, pois, quando os homens estiverem inteiramente acordados e sonhando, seus poderes de comunicação (uns com os outros e com o espírito que anima todos os homens) serão tão realçados que farão o ato de escrever parecer-se com os grunhidos ásperos e roucos de um idiota”.

Ou come acar completamente desperto estará à alçada de todo homem um dia. Muito antos ásperos e rum idienry Miller: “serão tão realçados que farão o ato de escres de comunicação (uns com onhid”otaes disso, os livrever parecer-se com os gruado de o pA arte de

verendo, seuso antou come acar complmente desperto estarlçada de ) ontudos qde ir, pmem um dis ásperos e rum idieninteiramentexisordados ry Miller: “serão tão realçtensaomoo (unmenetaois, quaom os grum e

euso antou come mplmente desieninteiramentexisperto eos e rumst rarlçada de ) ontudos verendo, sqde ir, pmacar coem um dis ásidordados

erumstuso antou clme nte e i desie nintementexisperome mpto eos ra

Boa sorte para nós todos!

-ou-

Vão todos se fuder!

-ou-

Ainda amo vocês.

-ou-

.

Texto: Ale Lucchese

Rio Grande do Sul Adentro

Juntar três amigos, cinco cavalos, dois cuscos e se atirar pelo Rio Grande do Sul para fazer 600 quilômetros em 13 dias de cavalgada tem tudo para ser uma grande aventura. E foi. Imagine o sufoco que deve ter sido para três rapazes-de-vinte-e-poucos-anos já acostumado com a rotina de Santa Maria sair pela grota gaúcha sem saber direito como arranjar comida, tendo que mendigar pouso, cuidar dos cavalos e descobrir rotas e caminhos possíveis de seguir com os animais pelos descampados.

É para reconstruir e fixar a memória dessa ensandecida  jornada que nasceu o livro Terra Adentro, obra dos guapos Tau Golin, Pedro Luiz Osório e Sérgio Metz. A viagem rendeu uma longa matéria assinada pelos três no Caderno de Sábado do Correio do Povo, ainda em 1980, ano que realizaram a empreitada. Esta matéria está na íntegra no livro, junto com outros causos da viagem.

Constituído de muitos fragmentos, há alguns trechos da obra mais brilhantes que outros. Mas vale a pena atravessar os trechos áridos: a prosa alcança uma beleza tão delicada em alguns momentos que conseguimos sacar que algum encanto abençoou a rota desses cavalheiros.

O trio se define como três “práticos da política” que queriam conhecer e vivenciar a cultura da terra que lhes deu a vida. E por isso toparam esse desafio, deixando o conforto familiar para queimar assim seus dias de férias e suas economias. Só por essa inusitada e perspicaz coragem, esse livro já deveria ser lido. Não é todo dia que alguém sai de casa para descobrir o Rio Grande do Sul.

Texto: Ale Lucchese

Venga a las Termas del Arapey!

Se quando te falavam em águas termais, vinha à cabeça um bando de velhinhos fazendo tratamento terapêutico, acho melhor repensar, ao menos em parte. Foi o que os Estrangeiros viram em sua excursão às Termas de Arapey, um dos tantos parques de águas termais no Uruguai.

Sim, os coroas estão lá, mas bem felizes, com seus netinhos, famílias, ou até com sua galera, relaxando, se permitindo curtir o ócio da terceira idade. Uma maravilha.

O lugar é mesmo um espetáculo. Com um ingresso de 7 reais é possível aproveitar um dia inteiro em várias piscinas que chegam a temperaturas de 42°C: fundas, rasas, cobertas, descobertas, infantil, para adultos, com e sem hidromassagem, e por aí vai. A natureza do lugar também é linda, tudo muito bem cuidado, isso que a administração é pública. Próximo localiza-se o Rio Arapey, que ajuda a compor uma bonita paisagem.

Há acomodações para todos os gostos e bolsos: casas e quartos para alugar de tamanhos diversos, lugar para acampar ou colocar o trailer, etc.

Acho que vale muito juntar a patota, rachar a gasol e cair na estrada. Além de ser um programa relativamente barato e divertido, tu sai de lá renovado depois dos diversos banhos nas águas terapêuticas de Arapey. Ah, mais uma vez, os coroas sabem o que é bom!

imagem-1

imagem-2

imagem-3

imagem-4

Texto e fotos: Thais Brandão

A travessia iluminada de Gary Snyder

Acontece que talvez nenhum de nós conhecesse Gary Snyder se ele não escrevesse versos e fosse um dos grãos de pólen dando cotoveladas até desabrochar o grande girassol que se tornou a cena cultural de São Francisco nos anos 1950. Na verdade, apenas um ano bastou para tornar Snyder um dos vagabundos mais conhecidos do planeta. Foi em 1955 que ele conheceu Jack Kerouac – a entidade que escreveu On the road – e foi até 1956, que eles viveram todas as iluminações que Kerouac publicou em The Dharma bums – algo como “Os vagabundos do Dharma”, mas que saiu no Brasil como “Os vagabundos iluminados”.

Morro da Polícia_Av. Salvador França_2

Nas páginas de Kerouac, Snyder ganha o nome de Japhy Ryder. Snyder/Ryder é um jovem estudante de chinês clássico na Universidade de Berkeley, e que também escreve versos e estuda literatura inglesa. O rapaz tem 25 anos, uma bagagem enorme de leituras, conhece grande parte dos Estados Unidos viajando de carona, já foi lenhador e guarda florestal. Além disso, é filho de anarco-sindicalistas, sabe tocar um hinário anarquista no violão, e apóia qualquer manifestação política de esquerda, apesar de não acreditar em nenhuma delas: quer mesmo é fazer balançar até cair o way of life que vem se estabelecendo no pós-guerra.

Todas essas facetas já comporiam um grande personagem, mas guardo aqui nesse parágrafo o componente mais incendiário: Snyder é um zen-budista. Quando Kerouac nos faz sentar com Japhy Ryder para tomar um vinho barato e ler as traduções que está fazendo do poeta Han Shan, é perceptível que Ryder/Snyder não está traduzindo apenas versos, mas um modo de vida inteiro diverso do tecnicismo que o pós-guerra acelerava. Snyder dinamitava qualquer engrenagem técnica que estava estruturada ou se estruturando na cabeça de quem aceitasse sentar com ele no chão para tomar uma xícara de chá.

Morro da Polícia_7

Ryder/Snyder ia em busca de si mesmo escalando montanhas, vivendo de maneira harmonizada com o meio em seus exílios pela natureza selvagem. Tal como Han Shan escrevia seus versos em pedras e cavernas no século IX, o vagabundo iluminado fazia enormes mandalas de neve ou de arbustos, invocava mantras e praticava meditação zen entre um dia e outro de caminhada pré-organizada. Organização é tudo quando se está sozinho, dependendo apenas das próprias pernas e com pouca comida em um ambiente selvagem: um cálculo errado pode significar a morte. O auto-conhecimento de Snyder quanto às suas necessidades e o respeito pelo espaço em que se encontra fazem qualquer papo sobre “sustentabilidade” parecer balela. As jornadas do poeta nos ensinam a amar e fazer parte do mundo, e não a gestar seus recursos de maneira que a exploração possa continuar por mais tempo.

Canto para sonhar

“Os vagabundos iluminados” acompanha Snyder até sua partida em um navio para seus oito anos de treino formal zen no Japão, em 1956. O poeta retorna no fim dos anos 1960, com esposa e filho, estabelecendo-se em uma fazenda ao pé das montanhas no norte da Califórnia.

Morro da Polícia_Av. João Pessoa_2

Tão artesanal quanto sua morada, a poesia de Snyder toca fundo alguma coisa que ainda pulsa em nós de espontâneo e primitivo. Seus temas vão desde um simples banho no filho a uma possível harmonização da cultura dos índios americanos com a invasão européia. Também escreve ensaios sobre etnopoesia, zen-budismo, meio ambiente, e tantas outras coisas. Seu livro Turtle Island, de 1974, foi premiado com o Pulitzer de poesia.

Apesar de ter mais de duas dezenas de títulos lançados, são escassos seus materiais com tradução em português. A maioria deles leva mais em conta o lado ensaísta de Snyder, em detrimento do poeta. Recentemente a Azougue Editorial lançou uma coletânea com seus poemas e ensaios, intitulada “Re-habitar”, mas nada de livros completos por essas bandas.

Outras travessias

“Os vagabundo iluminados” foi lançado em 1958, e contribuiu para que o poeta fosse elencado até hoje na lista dos expoentes da geração beat. Snyder não acha isso ruim, mas esclarece que teve pouca participação nas loucuradas libertárias daqueles anos em São Franciso, e que só manteve maior contato com Allen Ginsberg depois dos anos 1950, na medida em que crescia o interesse de Ginsberg pelo zen.

Ginsberg foi quem escreveu Uivo, o poema, digamos, “de estréia” da geração beat. Uivo se configurou como uma espécie de manifesto de alguns iluminados de uma geração que queria qualquer coisa, menos uma família americana, uma casa com calefação e um forno elétrico. Queriam uma vida que pulsasse, e não a acomodação do “pesadelo com ar-condicionado”, como Henry Miller iria definir com precisão em outro momento.

Morro do Osso_1

Em Back on the fire, lançado em 2007, um Gary Snyder com 77 anos conta como recebeu, a notícia de que Ginsberg estava falecendo em um hospital, vítima de câncer no fígado, em 1997. Ele conta com a simplicidade que só cabe aos poetas como Ginsberg “atravessou” a vida do coma para a morte, do mesmo modo que “o dia anterior a ontem atravessou as montanhas lá longe – no cheio florescer das cerejeiras”. É desse modo que Snyder atravessa a vida.

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão

Te diverte: sleeveface

Sleeveface é você com a cara de um disco. Simples (e divertido) assim. Os Estrangeiros, em sua insaciável busca pelo divertimento lúdico, também aprontaram com os bolachões. Roube os discos do seu tio e se divirta:

Roberto Carlos_1

John Lennon_2

Michalel Jackson_1

John Coltrane_1

The cure_1

Gaúcho da fronteira_2

Raul Seixas_2

Bob Dylan_2

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão e Ale Lucchese