O dia mais frio do ano

Ainda era madrugada e já passava da hora de levantar. Abri o zíper da barraca e prontamente me coloquei a fazer vinte polichinelos, coisa que meu instinto de sobrevivência impôs ao meu corpo – decisão muito acertada, o sangue passou a circular mais animado, e ao fim do exercício já tinha a nítida impressão de que não iria congelar. Conseguia até mesmo raciocinar e enxergar as coisas em minha volta.

Thais está saindo da barraca. Esgueira-se arrepiada e silenciosa. Tem o olhar dolorido, mas sem abatimento. Introspectivamente forte. Um grande gato selvagem que não se fragilizaria nem com a maior das surras.

– Temos vinte minutos. Será que vai dar tempo?

Vinte minutos para desmontarmos a barraca, fecharmos os sacos de dormir, guardar tudo em nossas mochilas e corrermos até a parada de ônibus. Daria tempo. Se corréssemos. Não poderia ser diferente: a única maneira de deixar um pouco distante a sombra onipresente do ar gelado era se movimentar rápida e contantemente.

À direita, quatro pias. À esquerda, três baias com vasos sanitários e duas com chuveiros elétrico. Sim, tínhamos armado a barraca dentro do banheiro feminino do camping. Havia dois vidros de janela quebrados e um enorme vão entre as paredes e o teto do pré-moldado, mas ao menos o abrigo fazia com que a umidade não chegasse diretamento sobre nós.

– Na minha boca agora mora o teu sexo, é a vista que meus olhos querem teeeer, sem precisar procuraaaaaaaarr…

Cantava, pulava, dançava e uivava, enquanto desmontava varetas, dobrava lonas e fechava mochilas. Este parecia o único jeito de permanecer vivo e sóbrio. Minha companheira guardava um silêncio tranquilizador e solidário.

– Ale, olha aqui. A escova de dentes congelou!

Tinhámos deixado também nossa esponja de louça escorrendo na pia antes de dormir, na esperança de guardá-la seca pela manhã. Naquele momento ela era um bloco amarelo e verde de gelo.

Saímos de mãos dadas, quilos de mochilhas nas costas. 06h 54m. O sol não havia nascido, mas a claridade ia espantando a madrugada e revelando o branco da geada sobre longos gramados e cantões recobertas de folhas secas.  Sem  tempo para fotos, precisamos correr com essa tralha toda até a parada.

Estamos tentando abrir o portão e vemos o ônibus passar. Dois minutos adiantado. Perdemos.

O jeito será ir até o hotel mais próximo e rezar para que o motorista do transfer que levava normalmente a Thais para o trabalho nos outros dias não encrenque agora e me dê também uma carona. E também será preciso encontrar um lugar para deixar toda essa bagagem que ficaria no guarda-volumes da rodoviária.

Pouco importa: o sol já nasceu, o céu é azul, e os carros já começam a deslizar ruidosos pela estrada, assim como o sangue que circula forte e nos aquece. Não sabemos muito bem porque estamos vivendo tudo isso, e por que desse jeito, nem onde vai dar. Mas alguma coisa gira e nos empurra como um tornado: é preciso continuar.

Texto: Ale Lucchese
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2 comentários sobre “O dia mais frio do ano

  1. Com esta descrição tão calorosa sobre um clima tão congelado, senti forte a emoção, como se esteivesse aí com vocês! … e também a certeza de que para isso é que foram feitos os escritores! Para nos transportarem aos mais remotos lugares e aquecerem nossos corações com suas belas histórias enquanto continuamos lendo-as, comodamente, em frente a lereira ou ar condicionado…

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