A cultura da carne

Ah, a carne! Depois de tanto conviver com ela através de embalagens e filmes plásticos anti-sépticos em prateleiras bem alinhadas de supermercado, estar em Quaraí nos deixa frente a frente com nosso instinto sanguinolento. Com todo aparato estético e técnico que envolve nosso consumo cotidiano, chegamos até a esquecer que continuamos sendo esses seres primitivos que somos. Seguem algumas imagens feitas pela Thais ainda no ano passado, e por mim nesta temporada, aqui na fronteira, que retratam um pouco dessa convivência direta entre entre nós humanos e nossas presas.

cultura_da_carne_3

cultura_da_carne_5

cultura_da_carne_2

cultura_da_carne_1

cultura_da_carne_4

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão e Ale Lucchese (Gaúcho com pelegos e pelegos estendidos)
Anúncios

Ponte Quaraí-Artigas

Estávamos atravessando a ponte que liga a cidade gaúcha de Quaraí a cidade uruguaia de Artigas. Dia solar, em torno das 15h, luz dura dura dura. Thais pega a máquina da mochila, pretendendo fazer apenas uma ou duas fotos como registro. Acabou saindo este despretensioso e colorido ensaio:

ponte quaraí_artigas_9

ponte quaraí_artigas_2

ponte quaraí_artigas_3

ponte quaraí_artigas_4

ponte quaraí_artigas_1

ponte quaraí_artigas_6

ponte quaraí_artigas_5

ponte quaraí_artigas_8

ponte quaraí_artigas_7

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão

Para levar na mochila (ou no bolso)

Hoje em dia todo mundo clica o tempo todo, as vitrines estão abarrotadas de produtos e mais produtos em todas as faixas de preços para quem quer fotografar. Antes de falar disso é preciso deixar  claro que para fazer grandes e boas fotos é preciso sair de casa. Em meio a esse vasto universo de câmeras compactas, fica difícil escolher uma quando todas parecem singularmente sedutoras.

Se você gosta de fotografar, quer um bom desempenho e mesmo assim não está disposta a pagar o custo de uma máquina profissional, e tampouco carregar uma larga tralha de lentes e outras quinquilharias,  selecionamos três câmeras compactas que são quase profissionais e ainda cabem no bolso.

As câmeras abaixo, além de fotografarem no formato .jpg – padrão na maioria das câmeras amadoras – também possibilitam o uso do formato raw – geralmente utilizado por fotógrafos profissionais, oferecendo mais recursos para obter uma maior plasticidade nas imagens. É uma boa oportunidade para quem está buscando se dedicar com mais afinco na tarefa de conseguir boas fotos.

A Canon G10 possui como diferencial o processador DIGIC 4 que possibilita a captura de uma grande riqueza de detalhes. E além disso, vamos combinar, é uma gracinha:


A Panasonic Lumix DMC-LX3 tem sucesso garantido por possuir as lendárias lentes Leica. Outros modelos da série Lumix também não ficam para trás em matéria de qualidade.

Já a Sigma DP1 tem o sensor Foveon, exclusivo da marca, que capta uma abrangência de tons de cores bastante diferenciada.

Todos os modelos possibilitam, além de ajustes manuais (diafragma, obturador, etc), a ampliação das imagens em grandes formatos. Isto é garantido pelos sensores de, no mínimo, 10.1Mpixel.

Uma boa dica é procurar em sites de venda como o Mercado Livre, onde é possível encontrar os  melhores preços.

Texto: Ale Lucchese e Thais Brandão

Contornando as Américas

Não queria ser mais um dos tantos que vive adiando um sonho.

Tenho plena consciência de que estamos de passagem nesta vida.

O tempo é crucial.

A decisão de abandonar uma vida tradicional e cômoda cabia a mim mesmo.

Era hora de escutar minha alma.

Mais do que isso, era hora de partir.

Marcelo Ramos de Oliveira

 

lg_contornandoTaí um livro que deve ser lido por quem pretende viajar ou simplesmente curte esse lance de viagem. O ano era 1998 e Marcelo era um cara que estava numa situação em que muitas pessoas costumam ficar e se acomodar: encontrava-se entediado e pouco satisfeito com a vida que vinha levando. Mesmo trabalhando numa grande empresa, na sua área de formação e com um bom salário não se sentia feliz. Resolveu mudar. Quebrou a cabeça pensando e sacou que sua felicidade estava esperando-o nas estradas. Pesquisou, planejou, calculou, buscou patrocínio para ficar nove meses rodando a América em uma caminhote, indo pela costa oeste até o Alaska e voltando pela leste, percorrendo 77.000km num total de 29 países.

O livro nada mais é do que um relato dessa aventura, onde Marcelo conta tudo, desde o início da idéia até o dia em que retornou da expedição: o que foi preciso para delinear a projeto e conseguir patrocinadores que bancassem (quase) tudo, como foi,  muitas vezes, a dura rotina de um viajante que não tinha muita grana e que precisava prestar contas e divulgar o projeto, os desgastantes procedimentos de entrada nas fronteiras, as pessoas que encontrou e deixou pelo caminho e por aí vai. É uma leitura que vale a pena porque dá uma boa idéia do que pode se encontrar nesta louca América, as coisas boas e ruins. No fim fica a certeza que a liberdade só pode ser conquistada com algo que poucos verdadeiramente dispõe: coragem. E Marcelo teve.

O livro foi lançado em 2000. Consegui comprar o meu no Estante Virtual. Sei que é possível encontrar outros exemplares lá.

Texto: Thais Brandão

A casa abandonada

Depois da gelada temporada em Bento Gonçalves, Os Estrangeiros estão na não menos fria – porém menos úmida – Quaraí, fronteira do RS com o Uruguay. Vamos deixar aqui para vocês mais algumas imagens da sede campestre da SUSFA, onde ficamos acampados na capital do vinho. Imagens feitas numa das corridas para não perder a condução de manhã cedo, quando sempre ficávamos nos perguntando o que seria aquela casinha de tijolos a vista abandonada na entrada do balneário.

Fosse o que fosse, àquela altura o que nos importava era que a casa sempre estava lá, adornando e enchendo de cor a brancura do início de cada dia e a escuridão de cada noite. Era a rústica generosidade da cidade nos acenando seus “bom dia” e “bom descanso”. Pequenos instantâneos que nos recordam o quanto de mágica há no dia-a-dia de todos nós. Fazer-se verdadeiramente presente para perceber é um exercício diário.

IMG_6883

IMG_6868

IMG_6877

IMG_6880

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão

O dia mais frio do ano

Ainda era madrugada e já passava da hora de levantar. Abri o zíper da barraca e prontamente me coloquei a fazer vinte polichinelos, coisa que meu instinto de sobrevivência impôs ao meu corpo – decisão muito acertada, o sangue passou a circular mais animado, e ao fim do exercício já tinha a nítida impressão de que não iria congelar. Conseguia até mesmo raciocinar e enxergar as coisas em minha volta.

Thais está saindo da barraca. Esgueira-se arrepiada e silenciosa. Tem o olhar dolorido, mas sem abatimento. Introspectivamente forte. Um grande gato selvagem que não se fragilizaria nem com a maior das surras.

– Temos vinte minutos. Será que vai dar tempo?

Vinte minutos para desmontarmos a barraca, fecharmos os sacos de dormir, guardar tudo em nossas mochilas e corrermos até a parada de ônibus. Daria tempo. Se corréssemos. Não poderia ser diferente: a única maneira de deixar um pouco distante a sombra onipresente do ar gelado era se movimentar rápida e contantemente.

À direita, quatro pias. À esquerda, três baias com vasos sanitários e duas com chuveiros elétrico. Sim, tínhamos armado a barraca dentro do banheiro feminino do camping. Havia dois vidros de janela quebrados e um enorme vão entre as paredes e o teto do pré-moldado, mas ao menos o abrigo fazia com que a umidade não chegasse diretamento sobre nós.

– Na minha boca agora mora o teu sexo, é a vista que meus olhos querem teeeer, sem precisar procuraaaaaaaarr…

Cantava, pulava, dançava e uivava, enquanto desmontava varetas, dobrava lonas e fechava mochilas. Este parecia o único jeito de permanecer vivo e sóbrio. Minha companheira guardava um silêncio tranquilizador e solidário.

– Ale, olha aqui. A escova de dentes congelou!

Tinhámos deixado também nossa esponja de louça escorrendo na pia antes de dormir, na esperança de guardá-la seca pela manhã. Naquele momento ela era um bloco amarelo e verde de gelo.

Saímos de mãos dadas, quilos de mochilhas nas costas. 06h 54m. O sol não havia nascido, mas a claridade ia espantando a madrugada e revelando o branco da geada sobre longos gramados e cantões recobertas de folhas secas.  Sem  tempo para fotos, precisamos correr com essa tralha toda até a parada.

Estamos tentando abrir o portão e vemos o ônibus passar. Dois minutos adiantado. Perdemos.

O jeito será ir até o hotel mais próximo e rezar para que o motorista do transfer que levava normalmente a Thais para o trabalho nos outros dias não encrenque agora e me dê também uma carona. E também será preciso encontrar um lugar para deixar toda essa bagagem que ficaria no guarda-volumes da rodoviária.

Pouco importa: o sol já nasceu, o céu é azul, e os carros já começam a deslizar ruidosos pela estrada, assim como o sangue que circula forte e nos aquece. Não sabemos muito bem porque estamos vivendo tudo isso, e por que desse jeito, nem onde vai dar. Mas alguma coisa gira e nos empurra como um tornado: é preciso continuar.

Texto: Ale Lucchese

Cambará do Sul II

Além de ser menos manjado, o cânion Fortaleza tem uma característica que o deixa ainda mais fascinante que o Itaimbezinho: tem menos infraestutura. Isso quer dizer que não precisa pagar para entrar, que há menos possíveis turistas arrotando refrigerantes e fazendo sujeira, e menos sedentários brigando com seus cônjuges por conta de um ter que acompanhar o outro numa trilha de mais de duzentos metros. E, principalmente, não há nenhuma corrente com uma placa dizendo “não ultrapasse” poluindo a paisagem e tolhendo a liberdade de visitantes que já são bem grandes e deveriam saber até onde podem carregar seus corpos e almas. Sim, esse canto do mundo realmente vale a pena. Confere:

for_1

for_2

for_3

for_4

for_5

for_6

for_7

Texto: Ale Lucchese
Fotos: Thais Brandão e Ale Lucchese (Thais em frente ao cânion)